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Thursday
Mar122009

Assim funciona a revisão por pares...

Eu não sabia se chorava, xingava, ou achava graça. O artigo que submeti em dezembro a uma revista prestigiada de neurociência voltou em janeiro com dois pareceres opostos, escritos por revisores anônimos. O primeiro só faltava me chamar de burra: segundo o revisor, o estudo seria mal-planejado, inútil, infundado e indigno de publicação em qualquer revista científica, muito menos naquela (nesses termos, mesmo). Para minha sorte, e bem quando o espanto passava e eu já começava a questionar toda minha formação e competência, bati os olhos em uma frase do parecer do segundo revisor: "the work is well done in virtually every aspect" (o trabalho é bem feito em virtualmente todos os aspectos"). A ela se seguiam mais elogios: o método desenvolvido pela autora é poderoso, o tema é central, os resultados são importantes e convincentes, e o artigo deve vir a ser altamente citado!!!!

Face a uma primeira crítica tão severa, o editor da revista não poderia, é claro, aceitar meu artigo. Mas suspeito que ele tenha feito coro ao segundo parecerista e discordado do primeiro, pois me ofereceu a oportunidade de, mesmo com crítica tão brutal, revisar o artigo, responder às críticas dos revisores - e ressubmeter o artigo à revista.

Assim funciona a revisão por pares: como uma caixinha de surpresas, da qual nunca se sabe o que sairá. O objetivo é nobre: protegidos pelo anonimato, os revisores, supostamente especialistas no assunto, avaliam se o trabalho é original, fundamentado, justificado, coerente e relevante, e idealmente oferecem críticas construtivas e úteis para que os autores melhorem o trabalho.

Mas... ocasionalmente se cruza o caminho de um revisor que simplesmente não aceita a nova idéia - no meu caso, de que o córtex cerebral não ganha cada vez mais destaque na evolução, e sim ganha neurônios ao mesmo ritmo que o cerebelo, embora o último seja muito menor e mais compacto no cérebro dos mamíferos. Devo ter atiçado a ira de um defensor fanático do córtex cerebral, que repudia toda e qualquer tentativa de dizer que talvez - talvez! - o cerebelo, que abriga sozinho 80% dos neurônios do cérebro, seja igualmente importante e as duas estruturas funcionem em conjunto no cérebro.

A sorte, nessas horas, é poder contar com um editor sensato, capaz de ler um parecer destrutivo e dizer "isto não faz sentido". Donde minha ocupação do momento: construir uma argumentação, polida porém firme, e totalmente fundada na literatura, contra as críticas do primeiro revisor. Eu apresento dados, ele (ou ela) responde com ideologia - e eu devo responder, então, com mais dados. É a esperança da objetividade, por mais que a ideologia esperneie. Como diz meu querido Jon Kaas, "You can't argue with data". Veremos...

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Reader Comments (4)

Olá Suzana, e minha primeira vez aqui no seu blog.Mas acompanho já a um tempinho seu trabalho timidamente desde uma entrevista sua que vi na tv uma mesa redonda na tv cultura (programa roda viva) de lá pra cá te acompanho sempre que posso.Infelizmente ainda não consegui ler teus livros,sempre que tento comprar está em falta e pela internet não confio muito porque nunca comprei nada via rede.Tem um tempo que quero falar com vc ,dizer que adooooro teu trabalho a tua forma de apresentá-lo para a sociedade e encantador,inteligente ,muito cativante.Sempre me interessei pelo assunto mas a forma que me era apresentada sempre me assustava e dava a idéia de que nunca conseguiria captar o assunto que pela maioria dos estudiosos do assunto e posto numa posição quase inalcançável,pelo menos meu professor de neuro-anatomia na faculdade era assim e era essa a idéia que eu tinha ate conhecer vc e os seus métodos revolucionários.Hoje a neurociência é passível de entendimento e ate houve a popularização dessa ciência e a sua participação nesse processo foi fundamental.Li aqui que recebeste criticas não tão enriquecedoras como deveria ,mas faz parte da vida os olhares serem diferentes infelizmente nem sempre respeitosos.No meu caso só tenho boas impressões do que vc fala sempre!.
Grande beijo .

March 17, 2009 | Unregistered CommenterDirciana Carvalho

Olá novamente,perdão não me identifiquei no primeiro comentário mas eis-me aqui na correção.Meu nome e Dirciana carvalho,26anos.(Igarape-Miri/Pará).
Amei seu blog,os temas são deliciosos.Me alimentei demais aqui e vou voltar sempre.
Bjs.
Dirci

PS:e-mail:dircianacarvalho@hotmail.com

March 18, 2009 | Unregistered CommenterDirciana Carvalho

Uau! Primeira vez que leio seu blog, por indicação que uma querida amiga, e tenho que confessar que este seu post caiu como um bálsamo...
Sou sua fã acadêmica desde os tempos que pedia aos alunos da disciplina de neurociências da FMU (na qual era auxiliar de laboratório - uma espécie de assitente na cadeira) que lessem seus livros e do prof Lent.
Acabei de levar uma levantada de bola e uma tremenda cortada na minha defesa de mestrado na última semana. Defendi um tema que versava sobre utilização da neuropsicologia como importante medida de eficácia terapêutica em uma população psiquiátrica (jogadores patológicos).
A arguidora foi um doce, mas o arguidor.... mas entre tapas e beijos, nenhum dos dois sequer questionou sobre a metologia, os resultados e os pontos levantados na discussão.
Melhorarei os pontos fracos...e me animei com a idéia de que dados são dados!
Que venha agora o parecer do artigo que eu e meu orientador submetemos....
Abraços e parabéns, Danielle

March 19, 2009 | Unregistered CommenterDanielle Rossini

Ciência para ser ciência tem que ser avaliada pelos seus pares. Admiro a ciência porque ela não está nem ai para o cientista, mas sim com o resultado. Cientista de verdade agradece quando é contestado. Agradeça aos físicos se você conseguiu ver seu cérebro e gostou. Um abraço.
Edson Vergílio

April 16, 2009 | Unregistered CommenterEdson Vergilio

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