A vingança do roedor mais feio do planeta
Eu deveria estar revisando o artigo da Diana Sarko sobre cérebros de insetívoros, mas cá estou eu, mais uma vez, procrastinando (pela minha definição). É que lembrei que, em uma de minhas visitas à Vanderbilt, Diana me mostrou as colônias de insetívoros e outros bichos esquisitos variados que eles mantêm no laboratório (como a toupeira de nariz estrelado, com tentáculos ao redor do nariz), e um deles, um roedor que acaba de aparecer em um artigo na PNAS, me chamou especialmente a atenção pela sua feiura peculiar: o rato-toupeira pelado (Heterocephalus glaber, ou naked mole-rat).
O pobre do animal é, de longe, mas muito longe, o animal mais feio que já vi. Seu corpo não tem pelugem, mas umas poucas fileiras de cerdas espessas e duras, que ele usa para se situar nos túneis que habita. Este é um animal de pele fina nua, rósea, enrugada como se fosse velhinho, mas dotado de pelos-quase-espetos nas costas. Os olhos são mínimos - e os quatro dentes incisivos, enormes e articulados em sua base. Sim, isso mesmo: os dentes são móveis. Para completar, embora mamífero, o rato-toupeira pelado vive em colônias organizadas à moda das abelhas, onde uma fêmea é a rainha e única a se reproduzir, contando com os serviços sexuais de vários machos.
Não é à toa que o bizarro animal é o preferido de alguns cientistas, interessados em estudar como seu cérebro lida com tantas peculiaridades de uma vez só. Um deles é Ken Catania, biologiste-extraordinaire em cujo laboratório Diana trabalha e com quem tenho a sorte de colaborar. Ken demonstrou em 2002, por exemplo, que um terço do córtex somestésico do rato-toupeira pelado é dedicado às sensações de apenas os quatro dentes incisivos, que o animal usa para explorar o ambiente e para manipular objetos, enquanto as sensações de todo o resto do corpo são processadas pelos outros 70% desse córtex. Outros mostraram que o cérebro da rainha tem bem mais neurônios nas regiões do hipotálamo que cuidam do comportamento sexual do que as outras fêmeas da colônia - mas, se uma dessas fêmeas sair da colônia e interagir com outros machos, seu cérebro se torna um cérebro de rainha. É uma baita demonstração da influência social sobre o cérebro...
Mas outra peculiaridade do rato-toupeira pelado deve fazer valer a pena de ser O Bicho Mais Medonho de Todos: enquanto seus parentes camundongos vivem no máximo uns dois anos, um rato-toupeira pelado pode chegar a viver... 28 anos ou mais. Um estudo recente na PNAS mostra que as proteínas desses animais são incrivelmente estáveis e resistentes aos danos causados pelo estresse oxidativo - ou seja, pelo funcionamento das próprias células.
Taí: quem sabe estamos descobrindo com o animal mais feio do planeta um truque para aumentar nossa longevidade? Só espero que o custo não seja perdermos todos os pêlos e ficarmos com dentes enormes. Hmmm, pensando bem, até que não seria tão diferente...
Tuesday, February 24, 2009 at 07:38AM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Direto do laboratório,
Do plantão da neurocientista
2 Comments |
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Reader Comments (2)
olá, não posso deixar de comentar um fato que me fez rir muito após ler o texto sobre o rato-toupeira. Bom, durante a leitura tentava lembrar onde já havia visto esse bichinho... No final do texto quando por brincadeira foi mencionado o preço da longevidade, como que por estalo lembrei que na realidade realmente nunca vi o animal em carne e osso, mas sim no filme "Eu sou a Lenda" onde as pessoas contaminadas ficavam inexplicavelmente identicas aos ratos - toupeiras. O que acabou me deixando curiosa sobre o assunto, será que foi proposital o uso das caracteristicas, no filme todos os seremos mutantes se unem para salvar uma mulher, seria ela a rainha deles? Enfim... deixo aqui o comentario e se alguem souber me responder agradeço.
Só retificando - a Toupeira de Nariz Estrelado não possui tentáculos no nariz, mas sim apêndices. A função dos apêndices é puramente táctil e sensorial, eles não têm função alguma na captura de presas ou de defesa.