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Wednesday
30Dec2009

Alucinações hipnagógicas com Interpol

Você já passou um dia inteiro, digamos, jogando cartas, e na hora de dormir ficou vendo naipes, figuras e números desfilando por seus olhos fechados? Ou jogou Tetris (é, eu sou do tempo do Tetris no Macintosh, com direito a musiquinha russa) de manhã até os neurônios fundirem, e à noite ficou vendo, mesmo sem querer, pecinhas coloridas deslizarem aos seus lugares até adormecer? Não se preocupe, você é normal: o replay dos eventos marcantes (sobretudo se repetitivos) do dia na hora de adormecer é conhecido da ciência, e tem até nome. São as alucinações hipnagógicas, maneira chique de dizer "recriações sensoriais do seu cérebro na hora de dormir", já estudadas pelo neurocientista-craque-em-sono Robert McCarley (aliás, justamente com voluntários que jogaram Tetris até não poder mais).

Minha experiência hipnagógica mais recente foi com o Interpol, jogo de tabuleiro que as crianças ganharam de amigos nossos e que fez grande sucesso também (ou sobretudo!) com os adultos da casa. Para quem ainda não foi apresentado, trata-se de um jogo de gato-e-rato *sem dados* (muito importante!) onde um ladrão deve fugir de táxi, ônibus, metrô ou balsa pelas ruas de Londres, com de 3 a 5 detetives no seu encalço. Jogar envolve ficar olhando fixamente para o tabuleiro, mapeando estações e possibilidades de fuga do ladrão, que só aparece de vez em quando. Comecei como ladra, com os três me caçando - e concluímos que assim fica fácil demais; é preciso ter ao menos 4 detetives no tabuleiro para ter uma possibilidade honesta de cercar o ladrão. Depois foi a vez da minha filha ser ladra; depois, do meu filho (meu marido preferiu continuar no comando da Central de Polícia, amarradão com uma possibilidade de usar seu conceito de Grafos Balanceados) - e logo já era hora de dormir, após termos passado ao menos três horas encarando o tabuleiro atentamente.

Resultado: deitei para dormir, fechei os olhos - e, mesmo ouvindo meu marido conversar comigo, tudo o que via eram ruas de Londres, estações numeradas e trajetórias coloridas de ônibus, táxis e metrô deslizando na minha frente. O mesmo, em graus diferentes, devia estar se passando nos cerebrinhos dos meus filhos, em suas camas respectivas. Pelo jeito meu cérebro decidiu que, de tanto tempo que passou processando aquela informação, ela devia ser importante e merecia ser guardada com cuidado. Acho que funciona, mesmo: alguns dias e várias outras partidas depois, já conhecemos bastante bem as possibilidades do tabuleiro, e sei de cor os números de algumas estações de metrô. Um dia desses jogaremos uma partida "a sério", eu fugindo e meu marido tentando me pegar com seus Grafos Balanceados...

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Reader Comments (5)

Excelente post. É algo que faltava aqui na internet pois diz respeito a um assunto que, com certeza, todos já vivenciamos. Eu já passei por isso diversas vezes.
Abraço.

December 30, 2009 | Unregistered CommenterMoisés Lisbôa

Eu amo jogos repetitivos, coloridos e sonoros... Mas depois de muito tempo jogando me achava estranha, tai o motivo... Então sou normal hahahha
Obrigada pela matéria!
Um ótimo novo ano!

December 30, 2009 | Unregistered CommenterIsabel

Às vezes é muito difícil pra mim pegar no sono porque fica passando uma porção de coisas pela minha cabença na hora de dormir. Adotei a estratégia de só ir para a cama com muito sono e ao deitar tentar ao máximo não pensar em nada. Pois um pensamento apenas é suficiente para desencadear uma linha complexa de raciocínio, o que vai me fazer ficar acordado pensando por bastante tempo, até o meu cérebro começar a fazer correlações aparentemente sem sentido e eu então eu me perder no sono.

Gostei da dica do jogo, vou considerar a compra.

Obrigado e um feliz 2010!!
[]'s
George.

December 30, 2009 | Unregistered CommenterGeorge Anderson

Ufa! Achei que brincar de Sudoku na cama, já com os olhos fechados, era meu privilégio.

Agora... o que são Grafos Balanceados eu continuo sem saber.

December 31, 2009 | Unregistered CommenterCarol

Também sou do tempo do Tetris no velho Macintosh Performa he he
Bom post.

Abração

January 6, 2010 | Unregistered CommenterTiago

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