Hoje

Aulas, aulas e mais aulas...

Posts recentes
« A bordo, SA222, Johannesburgo-SP | Main | O ex-presidente agora é cientista – e eu apertei sua mão »
Thursday
Dec032009

Bagagem acompanhada: dois artiodáctilos, seis roedores, sete quirópteros e um afrotério

Cérebro de girafaPaul já tinha me avisado que havia um problema com a autorização de exportação do cérebro de elefante: faltava um documento do Zimbabwe que havia sido entregue errado, e eram poucas as esperanças de que o papel correto, que ele já havia requisitado, chegasse antes de eu retornar ao Brasil. Mas eu não retornaria de mãos vazias: as 16 outras espécies iriam comigo – assim que a Sra. O., do Departamento de Vida Selvagem, concordasse que ele de fato já fornecera todos os documentos necessários e concedesse a autorização de exportação, o que já deveria ter acontecido há três semanas, antes de eu chegar.

Mas eu já estava lá – e nada do papel. Primeiro os documentos haviam se perdido entre o escritório do aeroporto e o do centro da cidade de Johannesburgo. Agora, segundo a Sra. O., “ainda falta a autorização correta do Serviço de Vida Selvagem do Quênia”. Paul encontrou o papel (desnecessário, segundo as autoridades do Quênia haviam lhe informado na época da coleta) e, na véspera da minha viagem de volta, ofereci-me a acompanhá-lo ao Departamento para conhecer de perto a burocracia sul-africana e quem sabe ajudar de alguma forma. Era incerto se a presença da pesquisadora estrangeira branquela que precisava levar os cérebros no dia seguinte ajudaria ou tornaria tudo ainda mais difícil, mas como Paul já tinha tentado todo o resto, fui junto – e aproveitei para conhecer o centro da cidade de Johannesburgo: ruas largas e limpas, tudo muito organizado e arborizado, mesmo com o zilhão de lojinhas encravadas nos prédios, estes imponentes e de uma arquitetura nem européia, nem norte-americana, um refresco para o olhar acostumado com as ruas estreitas e apinhadas do centro do Rio.

Paramos o carro no subsolo do prédio; para ter acesso ao elevador, era preciso passar por um imponente portão trancado e um detector de metais ainda na garagem (a preocupação com a segurança está em toda parte: cartazes nas ruas avisam que “Este bairro aderiu à Solução X de segurança”, e as lojas de conveniência no aeroporto têm o assortment mais variado de produtos anti-furto que eu já vi, incluindo alarmes detectores de movimento para pendurar na bolsa). No 11º andar, uma moça nos permitiu entrar, e fui seguindo Paul até a Sala de Autorizações, onde três cubículos envidraçados, no melhor estilo sala-de-visitas-de-cadeia, deixavam entrever os funcionários na repartição do outro lado. Quem primeiro nos atendeu foi uma moça muito sorridente e muito negra (aliás, agora me dou conta de não ter visto mulatos, ninguém cuja cor da pele fosse simpaticamente impossível classificar, como no Brasil: aqui há brancos e negros – ponto. Nós tivemos colonização; eles tiveram colonização e apartheid). Ela olhou nossos papéis – e saiu. “Puxa, não dava para ela nos atender? Ela é tão sorridente, falar com pessoas sorridentes é tão mais fácil...”, perguntei ao Paul. Não: tinha que ser a Sra. O. – que surgiu em seguida e, até o final da visita, não deu um único sorriso.

Havia uma cadeira em frente ao vidro e portanto era para Paul se sentar, mas ele ficou em pé, como a Sra. O. do outro lado. Resolvi me levantar ao lado de Paul e estampar no rosto meu sorriso mais simpático e subserviente e ficar quieta enquanto ele e a Sra. O. se atracavam no que era muito claramente uma disputa de poder entre dois espécimes de primatas: “eu já forneci todos os papéis necessários”/ “não, falta a autorização de exportação dos Serviços de Vida Selvagem do Quênia”/ “a carta do Museu do Quênia diz claramente que é uma autorização de exportação”/ “a carta do Museu não vale”/ “a Sra. está vendo que eu me esforcei para fazer tudo seguindo a lei à risca, e esta foi a autorização de exportação que me entregaram”/ “ignorância não justifica quebrar a lei, eu sou queniana e trabalhei para os Serviços de Vida Selvagem do Quênia dez anos atrás e conheço a lei”/ “bem, pois pelo jeito a lei mudou, e aqui está a pesquisadora que precisa desses cérebros, ela viaja amanhã de manhã, vocês me prometeram a autorização semanas atrás e eu preciso dela hoje; eu quero falar com o seu supervisor”/ “Pois o senhor se sente e fique sentado até eu voltar!”.

Suspense. Ofereci a Paul minha avaliação da situação: com zero juízo de valor, temos aqui uma senhora queniana negra, pequena, de seus 60 e tantos anos, enfrentando um homem branco europeu (ele é australiano) grandão que quer entregar cérebros de animais do país dela a uma estrangeira e portanto, acho que logicamente, ela está exercendo o poder que tem à sua disposição para enfrentá-lo: a autoridade. Sim, concordo que todos os papéis estão em ordem, Paul – mas talvez tudo o que ela queira seja que você sorria, abaixe a cabeça e a voz e peça gentilmente, like a good boy, que ela use seu poder e lhe conceda a autorização.

Volta a Sra. O.; Paul se levanta (“Não, Paul, senta, senta!”, eu tento inutilmente lhe transmitir por telepatia), mas muda de estratégia: “Sra. O., eu peço desculpas por ter elevado minha voz, por favor entenda que eu fiz tudo o que o seu governo pediu e forneci todos os documentos necessários para ter a autorização de exportação para a Prof. Herculano-Houzel, e é muito importante que ela obtenha essa autorização hoje”. Então, inesperadamente, ouvimos uma frase nova: “Pois o senhor volte aqui às 3 da tarde para pegar a sua autorização, mas da próxima vez traga os documentos corretos, ouviu?”. A Sra. O. quase sorriu.15:30, com a autorização - finalmente! - no envelope

Se foi a mudança de tom, o pedido para falar com o supervisor (uma ameaça vazia, porque ninguém nunca deu a Paul um nome ou número de telefone de um supervisor) ou o simples esgotamento da situação, não saberemos – mas fato é que, neste momento, tenho na barriga do avião uma frasqueira com minha identificação, uma autorização muito oficial em meu nome triplamente carimbada e assinada, e cérebros de uma girafa, dois damaliscos, seis roedores, sete morcegos e de um bicho cujo nome em português eu desconheço, mas que é valioso para nós, biólogos, por fazer parte de um dos ramos mais antigos de mamíferos, junto com o elefante: o rock hyrax.

O cérebro do elefante? Eu o vi, imponente e cheio de circunvoluções, boiando em solução anti-congelante no freezer. Assim que a papelada chegar do Zimbabwe, Paul visitará novamente a Sra. O. para obter a autorização sul-africana de exportação, e levará tudo ao setor de carga do aeroporto. É isso mesmo: meu cérebro de elefante vai chegar pelo correio ao meu laboratório, via Fedex. Isso vai ser divertido...

EmailEmail Article to Friend

Reader Comments (1)

Hahahaha... imagino esse Fedex chegando para você.

Tem coisas que só a rotina de um laboratório de pesquisas podem nos proporcionar. Nesses momentos todo o perrengue que sempre passamos acaba sendo aliviado, de tanta risada que todos dão.

Abraços e boa sorte com as novas colaborações Suzana, você merece!

December 8, 2009 | Unregistered CommenterGabriel Cunha (RNAm)

PostPost a New Comment

Enter your information below to add a new comment.

My response is on my own website »
Author Email (optional):
Author URL (optional):
Post:
 
Some HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>