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Dec012009

O ex-presidente agora é cientista – e eu apertei sua mão

O cartão de visita da Universidade da África do Sul, guardado em minha carteira, diz Pe. Jean-Bertrand Aristide, teólogo e psicólogo, doutor em literatura e filosofia. É um homem franzino, de jaleco e óculos pequenos, que me explica singelamente que esteve 13 vezes no Brasil e por isso entende português bastante bem, e vem me perguntar em espanhol se eu conheço alguém no Brasil que trabalhe com evolução da linguagem, sua paixão. Converso com ele normalmente em português, registrando no fundo da minha mente que estou tratando por “você”, como um colega neurocientista simplesmente, este homem que foi primeiro um presidente popular no Haiti - e mais tarde considerado um traidor do povo, até ser deposto em 2004 após rebeliões violentas.

Paul, chefe do laboratório e meu anfitrião em Johannesburgo, havia me perguntado na véspera se eu sabia quem era Jean-Bertrand Aristide. O nome soava familiar, mas confessei que não sabia: quem era? Ninguém menos que o próprio ex-presidente, quem Paul estava recebendo no laboratório, com apoio financeiro generoso do governo sul-africano. Aristide estava ali aprendendo técnicas de histologia para estudar o cérebro do damalisco (um parente sul-africano do antílope), mas seu real interesse era a neurolinguística. Paul me avisava com antecedência para que eu não fosse pega desprevenida quando o encontrasse – afinal, seria compreensível se eu tivesse “issues” em compartilhar o espaço do laboratório com aqueles que muitos consideram um ex-ditador.

“No issues, it’s ok, thanks for telling me”, respondi. Mas dali em diante Gil e Caetano cantavam na minha cabeça “Pense no Haiti, reze pelo Haiti/ o Haiti é aqui/ o Haiti não é aqui” toda vez que eu pensava no assunto e exigia de mim mesma: qual a minha opinião sobre o ex-presidente e possível ex-ditador do Haiti?

Sinceramente? Não sei. E, mesmo agora que eu não só apertei sua mão como conversei cordialmente com ele, como faço com qualquer pessoa, ainda não consegui formar opinião a respeito dele, nem de minha resposta a ele. Afinal, ofereci-lhe meu cartão de visita em retribuição ao seu, recomendei os trabalhos de Michael Petrides, que faz estudos comparados da área cortical e do gene FOXP2 envolvidos na linguagem em humanos e outros primatas, sorri e apertei novamente sua mão, respondendo que era um prazer conhecê-lo também. Agora confiro na internet que este é um homem acusado de ter traído o povo haitiano e de ser responsável, direta ou indiretamente, por tantas mortes na rebelião de 2004. A situação é nova e inusitada demais; meu cérebro não tem a menor idéia do que fazer a respeito, senão seguir seu default de tratar o próximo como gente. Será que ter tratado como gente o ex-presidente e talvez ex-ditador do Haiti me torna uma pessoa horrível? De qualquer forma, eu não teria sabido fazer diferente.

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Reader Comments (6)

Tenho profundo fascínio por genocídas gentís. Não dá pra dizer de cara que esse homem tenha sido o responsável por tantas mortes ou tanta miséria humana. Há também a possibilidade de ele ter sido um testa de ferro... afinal não há ninguem mais passivo de acusação que um presidente... Conte-nos mais Suzana... como ele é... como é a mente e tal... vai ser bastante agradável ler.

December 4, 2009 | Unregistered CommenterK-prA

Cara Suzana,

Se fosse possível colocar numa balança tudo que alguém já fez, você com certeza teria que fazer muito mais que apertar a mão de quem quer que for para se tornar "horrível"... o que poderia estar mais longe disso?
Já quanto a "balança" do Padre Jean-Bertrand, a conta me parece ser muito mais complicada. Mas como não existe tal "balança", acho que vale a pena focar no que ele está fazendo agora. Se ele estiver se dedicando de verdade a algo bom, isso pode ser um indicativo de que ele nunca foi tão ruim ou de que ele passou por grande mudança para melhor, o que também ainda teria seu mérito. Então a questão é: o que você achou do trabalho e da dedicação dele? São bons, verdadeiros?

December 4, 2009 | Unregistered CommenterLuis Gustavo Neves

Suzana,
Você é uma cientista, e como tal deve ter amor a ciência e a difundir e trocar idéias científicas. O mesmo se diga do ex-presidente. Em pleno século XXI não há o menor cabimento de cientistas de ponta terem como óbice à discussão e ao desenvolvimento da ciência questões políticas, morais ou religiosas. Esse tempo ficou na idade média.
È claro, que se você perceber que ele estar querendo tirar partido do conhecimento e do intercâmbio científico em prol de algum projeto político, nesse caso você deve analisar se suas opiniões pessoais se coadunam com o projeto que você estará supostamente ajudando.
Mas enquanto ele busca o conhecimento cientício somente pelo amor ao conhecimento e ao progresso da humanidade, é totalmente inadmissivel que isso se torne um "issue" para o seu relacionamento profissional e acadêmico com ele, o que para existir demanda um clima cordial. Òbvio que isto não significa que você deva simpatizar com ele como pessoa, ou menos ainda, com as posiçoes e atos politicos dele.
Mas deixar que as SUAS posiçoes politicas, religiosas, filosóficas ou quaisquer outras impeçam o avançar do conhecimento, seu ou de quem quer que seja, sem que este conhecimento possa vir a prejudicar suas posições, isso seria totalmente contraditório para uma pessoa que ama a ciência e a academia.
Acho que isso responde a sua pergunta, ao menos na minha opinião.
Saudações.

December 6, 2009 | Unregistered CommenterAna Paula Fiuza

Me lembrou " O último rei da Escócia", filme no qual Forest Whitaker interpreta o ditador Ugandense Idi Amin e sua relação com seu médico particular. Uma personalidade alegre e agradável, ao menos ao primeiro contato. Seria uma característica dos ditadores? Afinal, ditador nenhum se sustenta sem uma sólida base de apoio mais proximal. Quem sabe esse apoio não passa por aí, antes de atingir a opressão e o medo?

March 3, 2011 | Unregistered CommenterEduardo Bessa

Este blog é de sopro da mente. Tenho que admitir que no começo eu pensei que não tinha nada interessante para oferecer, mas depois de ler alguns posts minha opinião mudou radicalmente.
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November 9, 2011 | Unregistered CommenterAxel

Este blog é fantástico, eu não tinha visto nenhum semelhante antes. Tenho que aceitar eu achei por um golpe de sorte, mas estou impactado com a sua qualidade. Eu espero que você continue postando com a mesma paixão que você fez aqui.
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November 9, 2011 | Unregistered CommenterMatthew

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