Por que vemos desenhos que são sempre iguais?
Quando não é o Cartoon Network, é o Disney Channel que domina a televisão daqui de casa. E quando passa Phineas & Ferb, até meu marido para o que está fazendo para ver com as crianças, às gargalhadas. Por que esse é um dos programas favoritos do meu eleitorado?
A Neurocientista de Plantão vai então ver desenho animado - tudo em nome da ciência. Parece que todos os episódios de Phineas & Ferb têm exatamente a mesma estrutura, que é a seguinte: menina pré-adolescente tem dois irmãos amalucados; irmãos amalucados passam o dia inteiro inventando invenções amalucadas para afastar o tédio das férias de verão; irmãos amalucados têm um ornitorrinco verde de estimação que na verdade é um agente secreto que passa o episódio inteiro tentando combater um arquivilão (que também é sempre o mesmo); irmã chateada com as armações dos irmãos tenta dedurá-los para a mãe - mas, na hora H, o ornitorrinco e/ou o arquivilão colidem com as invenções dos irmãos e fazem tudo desaparecer, e a menina jamais consegue que a mãe veja o que os irmãos estão aprontando.
É sempre igual - e é sempre diferente, de um jeito mais diferente que os clássicos Papa-Léguas e Tom & Jerry. Claro que boa parte da graça está nas piadinhas ao longo da estória, mas acho que a parte principal está em (1) saber que haverá um problema (a menina tentando dedurar os irmãos), (2) saber que o problema vai certamente se resolver (pois a menina jamais consegue dedurá-los), e (3) não saber qual será o problema nem a solução da vez. Ou seja: minhas crianças não sabem (por outro lado, meu marido, o roteirista de plantão, sabe perfeitamente), mas provavelmente vêem Phineas & Ferb para descobrir qual foi a solução mirabolante que os roteiristas inventaram desta vez. Criatividade dá barato dos dois lados - em quem a tem, e em quem sabe onde ela vai aparecer...
Sunday, November 8, 2009 at 05:27PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista,
Mídia
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Porque até nos desenhos estão todos amalucados? Segundo o psiquiatra carioca Jorge Alberto da Costa e Silva, na entrevista para a veja em 2001, "há uma psiquiatrização ocorrendo na sociedade. Já existem quase 500 tipos descritos de transtorno mental e do comportamento. Com tantas descrições, quase ninguém escaparia de um diagnóstico de problemas mentais e isto ocorreu também com o desenvolvimento das neurociências, a partir das décadas de 70 e 80."
http://veja.abril.com.br/270601/entrevista.html
Doutora, será que informação demais é bom para o cérebro, ou não.
Não como você ser racional com tudo. O desenho é feito para divertir, se você olhar o roteiro vai ver que é uma bobagem.
Tem pessoas inteligentes que eu conheço que gostam de ver meninas super-poderosas. Me falaram que a graça é ver como o comportamento de cada uma é importante para consegui desvendar a história. Todos sabem o que vai acontecer no desenho, mas mesmo assim eles continuam vendo.
Isso é muito comum em séries que TV de comédia por exemplo. Você não espera um final incrível, e as vezes as histórias nem tem ligação com o episódio anterior. Mas mesmo assim um bando de pessoas veem.
Não se pode ser tão racional quando estamos tratando de entretenimento.
Sobre desenhos legais e desenhos chatos
Desenhos amalucados e exagerados existem desde sempre, pois o humor da época áurea (época em que o Donald, Pernalonga, Tom e Jerry e tantos outros foram criados por americanos com senso de humor) era fundamentado no humor que os adultos apreciavam ouvir no rádio, nos teatros de Vaudeville e no cinema, a grande diversão da multidões. Era a época de Chaplin, de Buster Keaton, dos Tres Patetas, dos fabulosos irmãos Marx, dos geniais Stan Laurell e Oliver Hardy. Humor corrosivo, humor arrasador, humor anarquista! Difícil de se ver hoje em dia, mas sem dúvida que Jim Carrey bebe nessa fonte quando faz suas caretas e trejeitos.
Mas um tipo de humor que sem dúvida levava em conta a presença de crianças na sala, e que se dirigia pra elas, mesmo em se levando em conta os olhos esbugalhados e a língua que se desenrolava igual a um carpete vermelho quando passava diante do personagem uma bela fêmea da espécie, e todo mundo sabia pelas batidas de seu coração que ameaçava sair do peito (e as vezes saía) que ele estava apaixonado...
Tecnicamente os desenhos eram obras de arte a 24 quadros por segundo, feitos ali, na raça. Puro talento em technicolor. Basta conferir os desenhos Disney feitos na década de quarenta (e estou só mencionando os curtas, nem vou entrar no mérito de Snow White e Fantasia...). Só no final dos anos 50 com uma TV em cada lar o paradigma foi se modificando e adaptando ao novo formato. A TV ditou novos costumes, o cinema começou a declinar como proposta de lazer. Foi quando Bill Hanna e Joe Barbera (pais de Tom e Jerry) acertaram em cheio com uma nova proposta, com fundos que se repetiam e enquanto os heróis - Pepe Legal, Zé Colméia, Manda Chuva e Don Pixote entre muitos outros - corriam tresloucadamente. A qualidade técnica foi sacrificada mas houve um grande rendimento na produção. Indiscutivelmente os desenhos continuavam com bons roteiros tornando os personagens Hanna Barbera memoráveis e adorados por todos.
O humor dos desenhos, tão dinâmico, de poucas palavras, muita ação e cheio de idéias delirantes seguia esse conceito básico, estava ali prá divertir.
Hoje em dia os desenhos são isto que está aí: conversas sem fim e pouca ação, pouca imaginação. Bob Esponja (que por alguma razão parece que é a-ma-do pela galera gay intelectual de Nova York) e Billy e Mandy dão de 10 a zero nesse tal Phineas e Ferb mal desenhado. Ô desenho chato! Mas tudo bem, tem quem goste, ué...
O politicamente correto atou as mãos dos desenhistas e roteiristas. É triste constatar, mas Donald e seu mau gênio (o verdadeiro grande personagem Disney), Tom e Jerry e suas correrias “violentas”, Picapau e seu senso de humor insano, o irreverente Pernalonga, o alucinado Patolino e o chefe dos malandros Manda Chuva dificilmente seriam criados hoje como o foram há 50 ou 60 anos atrás. Por isso mesmo as tentativas de recriá-los termina em fracasso retunbante ou versões pausterizadas e melosas que só os bebezinhos conseguem aturar, para desespero dos pais que tem que acompanhá-los. E só mesmo a força de seu passado glorioso mantem as vendas de milhões de bichinhos de pelúcia nos parques temáticos e lojas de brinquedos.
É uma delícia sentar no sofá e dar umas risadas e passar uns bons momentos com minha filha que adora desenhos. Mas esses momentos são cada vez mais difíceis de obter, considerando a safra de desenhos sem carisma de hoje em dia.
HPVon Paulus I, o místico iconoclasta.