Johnny Mnemonic, Ray Kurzweil e o download da mente
Do blog Geek: Ray Kurzweil, futurologista norte-americano, defende que até 2045 "seremos capazes de enviar informações de uma mente humana para um computador, capturando toda sua personalidade, incluindo memória, habilidades específicas e sua história, usando para isso máquinas não biológicas que co-existirão com os humanos de forma tão harmoniosa que as diferenças entre eles não serão tão importantes".
A-hã. Não fosse o pequeno detalhe de nosso estado mental a cada instante resultar da combinação particular e matematicamente indescritível de quase uma centena de bilhões de neurônios funcionando em rede, conectados por trilhões de sinapses que *não* são dispositivos binários, e até daria para dizer "é, talvez". Por enquanto, vou ficar no duvi-de-o-dó.
Não que a possibilidade não seja divertida. A ficção científica já deitou e rolou em assuntos parecidos. Os uploads de programas de treinamento Kung-Fu ou com armas no Matrix são ótimos, e até que poderiam ser implementados em um futuro não muito distante, onde as entradas sensoriais do treinamento real seriam simuladas diretamente no cérebro. Viver numa Matrix? Quase trivial - já sabemos implantar eletródios e estimular o cérebro em padrões diferentes. Alimentar o cérebro com realidade virtual, dando bypass nos sentidos, já é hoje uma realidade para muitos animais de laboratório - e até alguns humanos também, portadores de implantes.
Mas daí a fazer o contrário - registrar o estado de constituição e atividade do cérebro *todo* e como ele varia ao longo do tempo - são outros quinhentos, necessários para o tal download da mente humana para um computador. Se você lembrar que computadores, por mais "inteligentes" que sejam, ainda mal sabem fazer multitasking (como até as crianças sabem fazer, andando e cantando e chupando pirulito ao mesmo tempo), transformar um computador em fac-símile de uma mente *em funcionamento* ainda me parece impensável.
Curiosamente, mesmo na ficção científica, o único download que me vem à mente é do Keanu Reeves fazendo papel de um "traficante de dados", dotado de um implante cerebral (de 80 Gb!), em um filme de ficção científica tão ruim, mas tão ruim, que eu comecei a achar maravilhosamente engraçado: Johnny Mnemonic. A história original é do William Gibson (e acho que eu já li e gostei), mas o filme, adaptado, ficou meio patético. Verdade que vi o filme em 1995, quando era estudante de doutorado; gostaria de ver de novo agora para saber o que acho. O que ficou na lembrança foi um Keanu Reeves pré-Matrix andando cada vez mais atordoado em cena, obnubilado pelo upload excessivo de memória feito em seu cérebro, repetindo "I need to download!!! I need to download!!!" enquanto vara a cidade em busca de um terminal para poder fazer download dos dados em sua mente e não fritar seu cérebro, e ainda escapar da máfia asiática.
Enquanto o futuro do Kurzweil não chegar, contudo, a gente pode ir fazendo downloads de nossa mente e personalidade à nossa forma: escrevendo, produzindo arte, deixando bilhetes, músicas e poesias - e fazendo a diferença para a vida dos outros. Afinal, se o meu cérebro tem como deixar marcas no seu (boas, espero), isso já é uma certa forma de download, de transmissão de dados de um cérebro diretamente para o outro. Nem requer computador (embora possa até usar um como interface). Ah, a tecnologia da natureza, tão debaixo dos nossos olhos que às vezes a gente não vê!
Wednesday, October 7, 2009 at 09:46PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
10 Comments |
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Reader Comments (10)
Uma bela marca essa deixada em meu cérebro, após ler seu texto, hehe!
Inté!
*não* são dispositivos binários - É curioso como as pessoas costumam não considerar esse "pequeno" detalhe.
Que ótimo texto, Suzana.
Não devemos mesmo esquecer que nossas produções - conscientes ou não, mais ou menos relevantes - são nosso legado para o mundo que nos acolhe enquanto estamos por aqui. E nada melhor que as produções artísticas para embelezar a caminhada e torná-la tão mágica quanto o impecável e quase inexplicável funcionamento de nossas redes de neurônios!
Abraços,
Rita
O fato de não serem binários nao significa não serem *computáveis*, que é o termo mais apropriado para o contexto.
Há uma longa discussão a respeito de o cérebro ser computável ou não, e todo pesquisador da área de inteligência artificial ouviu falar muito delas. Até hoje ninguém conseguiu provar que isto não é possível, mas também ninguém apresentou um software que chegue próximo do cérebro.
Ótimo texto!
O embasamento de Kurzweil envolve a nanotecnologia (uso bem leviano, diga-se). Falei um pouquinho a respeito lá no meu blog.
Abraços,
Fernanda
Carissma,
Essa briga é imensa, mas... as teorias de ia sao baseadas em teorias matemáticas. E agora encontram terreno fértil em novas teorias da computação, em especial, computação quântica... Da um bom trabalho explicar, mas, a teoria dele hoje, seria o mesmo que alguém dizer, em 1990, que a internet seria ubíqua como é hoje.. ou que teríamos 4 bilhoes de telefones celulares por ai..
Mas tem o filme, singularity, saindo jaja... :)
http://www.singularity.com/themovie/
Na verdade a capacidade de processamento paralelo dos computadores atuais está bastante relacionada com a arquitetura dos seus processadores, que basicamente tem um módulo que centraliza todo o processamento (ALU). Além disso, o processador de um computador fica a mercê de um relógio central (clock) que sincroniza os componentes lógicos para garantir que as operações ocorrem de forma controlada.
Mas isso signifca somente que a forma como dispomos os os componentes de um computador é extremamente distinta da forma como os neurônios estão organizados, pois construímos os nossos computadores para serem calculadoras grandes com a memória de um lado e o processamento de outro.
Isso não significa que não é possível criar processadores que tentem imitar os neurônios. Por exemplo, existe pesquisa atualmente a respeito de lógica sem relógio central.
Também é possível fazer com que os computadores sejam construídos misturando componentes analógicos e digitais no processamento de informações, por exemplo simulando um disparo de um neurônio através de circuito analógico.
Ainda assim, acho 2045 otimista demais. Como manipular quase 100 bilhões de neurônios pra conseguir fazer essa cópia? Quem sabe em 3045?
Faltam ainda 35 anos, falando em computadores e nanotecnologia é uma eternidade. Se os que entendem estão otimistas, quem somos nôs?, que não entendemos quasi nada de biotecnologia o sei lá o que for, para duvidar?
Há 35 anos ninguém pensaba que hoje tería uma rede mundial de computadores para conversar e visualizar uma pessoa do outro lado do mundo on line. Há 45 anos o ser humano sonhava com chegar á lua ... e hoje ...olha lá!
Gente há 90 anos não tinhamos nem penicilina, nem bomba atómica né?
Há 35 - 40 anos atrás, os computadores das missões Apollo tinham bem menor capacidade de processamento e memória que um smartphone de 300 Reais de hoje em dia.
Em 95 mesmo, ano em que o filme surgiu nos cinemas, 80GB era um número sem fim de dados - à época, 1MB era dado pra cacete! O top de linha em 95 era o processador 486 com 8MB de ram, 560MB de disco.
Lembro que em 2004, quando estava terminando meu 2º grau técnico em informática, já falava-se no fim da Lei de Moore (que diz que a complexidade de um chip dobra a cada 18 meses mantendo o mesmo preço), já que não se conseguia aumentar a capacidade de processamento das cpu's a mais de 4GHz - e o soket não dava pra ser aumentado... não lembro direito da explicação, mas tinha a ver com a capacidade elétrica do chip, era alguma coisa a ver com a transferência de elétrons entre o processador e a placa-mãe. Dizia-se que a única chance de obter processamento massivo àquela velocidade só com "supercomputação" (nome fashion pra computação distribuída - clusters, grids, computação em rede etc)... conclusão, alguns meses depois, pintaram os primeiros processadores de 2 núcleos. Depois vieram os de 4, depois 8... As estimativas mais pessimistas dizem que a lei de Moore vai durar até pelo menos 2015 ou 2020.
35 anos pra informática é muito tempo - por mais que hoje possa parecer absurdo hoje em dia, pode acontecer. Eu me mantenho neutro, mas não duvido que possa acontecer não. Aliás, falam que até 2030, uma máquina vai passar pelo teste de Turing. Hoje em dia, parece absurdo... mas já tem gente conversando com "Bot" na internet achando que é gente de verdade...
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