Um(a) neurocientista extraordinário(a): Ben Barres, ex-Barbara Barres
A palestra de Ben Barres no salão principal da reunião anual da Society for Neuroscience em Chicago, para sete mil pessoas, começou como de costume: Ben apresentou seu assunto (células gliais, que tendem a ficar em segundo plano atrás dos neurônios), mostrou como os astrócitos ensinam os neurônios a produzir sinapses, deu o devido destaque para a pós-doutoranda em seu laboratório que fez o grosso do trabalho. E então, com meros 15 minutos decorridos, Ben usou o gancho da sua pós-doutoranda, agora jovem professora da Duke e mãe de um bebezinho de um ano, para abrir um longo parênteses sobre... a importância da diversidade humana e do respeito aos direitos iguais de homens e mulheres, qualquer que seja sua orientação sexual.
Ben trabalha na Universidade Stanford, na Bay Area de San Francisco, famosa pelo histórico de tolerância à diversidade sexual - mas ainda assim, em sua opinião, mesmo em Stanford não vê as mulheres receberem o devido reconhecimento por sua capacidade de trabalho, que é igual à dos homens. Durante o parênteses em sua palestra, Ben comentou seus esforços para que as mulheres sejam reconhecidas, e deu o link para o vídeo que segue abaixo: sua palestra em resposta ao comentário público feito por Larry Summers, então reitor de Harvard, quem afirmou que a pequena presença de mulheres nas ciências exatas seria devida a "diferenças inatas no cérebro".
Ben Barres, como neurocientista, conhece os argumentos que depõem contra a tão presumida "diferença inata nas habilidades cognitivas dos cérebros femininos e masculinos". Mas seu depoimento mais valioso a respeito vem de sua própria experiência: Ben viveu 40 anos de sua vida como Barbara Barres. Como Barbara, sofreu discriminação várias vezes. Como Ben, ouviu comentários de seus colegas homens denegrindo colegas mulheres; viu sua pesquisa ser mais bem recebida; e até recebeu comentários de que "seu trabalho era muito melhor do que o da irmã, Barbara" (!!!!). Desde então, Ben atua em vários comitês, inclusive no NIH, ajudando a tornar as condições de trabalho e competição iguais para mulheres e homens na ciência.
Veja abaixo a íntegra do vídeo da palestra de Ben Barres na Universidade Harvard, em resposta aos comentários de seu ex-reitor, onde Ben comenta seu histórico pessoal e as razões para a mudança de sexo.
Suzana Herculano-Houzel
PS1. Ben foi aplaudidíssimo ao acabar seu parênteses pró-diversidade na palestra no congresso. Voltou ao assunto dos astrócitos e como eles ensinam neurônios a fazer sinapses, e foi aplaudidíssimo mais uma vez. Ao final da palestra, ficou simpaticamente sentado no chão do pódio respondendo às perguntas dos vários estudantes e cientistas (à minha inclusive). Para todos, Ben tinha algum comentário positivo a fazer: "que interessante", "obrigado por me contar isso", "continue assim". Muito simpático mesmo.
PS2. Eu continuo insistindo que as "diferenças cognitivas" entre homens e mulheres são sobretudo uma questão de expectativa: espere (porque seus pais/professores/colegas/chefe) um bom resultado em matemática e você terá um bom resultado; espere um resultado ruim, e seu desempenho será ruim. Por isso, melhor partir do princípio que todos, meninos e meninas, têm as mesmas habilidades. A chance de descobrir excelentes *pessoas*, não importa se homens ou mulheres, professores, escritores, cientistas, matemáticos, físicos, engenheiros, pianistas, médicos e o que mais quiserem fica bem maior assim. Diferenças cerebrais de fato até existem, mas elas dizem respeito a algo tão embaixo de nossos narizes que não damos lhe importância: a preferência sexual. A maioria dos cérebros masculinos se sente atraída por mulheres, e a maioria dos cérebros femininos, por homens. Os cerca de 10% de diversidade têm razões igualmente biológicas para se interessar sexualmente pelo mesmo sexo, e deveriam ser respeitados por isso - assim como aprendemos a respeitar a cor dos olhos e da pele das outras pessoas e não obrigá-las a mudar... ou deveríamos aprender.
Monday, October 26, 2009 at 07:08AM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
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Reader Comments (6)
Uau, que história! Estava na expectativa para ouvir os ecos do congresso e... não poderia ser melhor!
Nossa, lendo seu blog recem descoberto por mim, me deu mais vontade ainda de 'ir para neurociencia'.
Sobre a diferença sexual, bem, infelizmente pelo mesmo motivo que acham que existe diferença de inteligência porque as cores de pele se diferem, acham que o órgão sexual muda o fato de uma mente ser brilhante.
A coisa piora se colocarmos o fato de a mulher ser historicamente tida como inferior graças a valorização desmedida do esforço e habilidades físicas, este, infelizmente, a mulher tem menos.
Ah sim, parabens belo blog (:
Há um livro chamado COMO SE ENSINA A SER MENINA que trata dessa questão cognitiva de meninas e meninos. Para os autores, as meninas são ensinadas, em casa e na escola, a desenvolverem algumas habilidades e, os meninos, outras. Por exemplo, se uma menina vai mal em matemática, o professor aceita. Mas se vai mal em letras, é uma aberração. Muitos pesquisadores já se debruçam sob essa questão e eu, como jornalista, já escrevi sobre o tema algumas vezes: "Quanto maior o cargo, menor o número de mulheres" http://www.comciencia.br/comciencia/?section=3¬icia=475 e "Nas humanas, elas são maioria. Mas chegar no topo ainda é dificil" http://www.comciencia.br/reportagens/mulheres/03.shtml
abraços, Sabine.
Suzanahhhhh...
Sou afilhado da Andrea Miranda, n sei se lembra dela, sou estudante de publicidade e propaganda e estou fazendo um tcc sobre Neuromarketing, tendo tambm como base a neurociência.
Gostaria de saber se posso usar as informações de algumas entrevistas que vc concedeu, ja que conceder uma entrevista a mim seria um pouco complicado mas caso tenha algum tmpo mande seu e-mail q mandarei um questionário.
Tambm gostaria, c possivel, mandar para meu e-mail algo falando sobre a origem na neurociencia e tambm sobre a sua experiencia com o neuromarketing, pois li uma vez acho q em um blog seu q vc iria participar d um teste de neuromarketing e estava tda empolgada mas n consegui saber do resultado.
Desda ja Agradeço
cesario.monteiro@bol.com.br
juniortfx69@hotmail.com
8294-1636 / 96397437
Cesário Junior
Olá, Drª. Suzana! Tudo bem?
Meu nome é Danilo. Tenho um blog de notícias sobre o São José Esporte Clube (SP), o Informativo da Águia (www.informativodaaguia.blogspot.com). Além de publicarmos informações sobre o dia a dia do time, fazemos matérias especiais sobre alguns assuntos ligados ao futebol.
Nossa próxima ideia é fazer uma matéria sobre as superstições dos jogadores de futebol antes de uma partida, como, por exemplo, entrar em campo com o pé direito, usar sempre a mesma cueca... Portanto, para o leitor entender o motivo essas situações, gostaríamos de entrevistar, além dos atletas, alguém que estude esse tipo de comportamento.
Por isso, pergunto se você poderia colaborar conosco? Caso aceite, por favor, envie um e-mail para informativodaaguia@yahoo.com.br . Assim, te envio as quatro perguntas sobre o assunto.
Desde já, obrigado pela atenção!
Mente brilhante é a do homem ou da mulher? A última vez que vi "Uma Mente Brilhante", descobri que era uma mente "defeituosa".