Por que marteladas dóem mais no ouvido alheio?
Você já notou que as marteladas dadas por você mesmo dóem bem menos do que as marteladas feitas por outra pessoa - apesar de suas próprias marteladas estarem em geral bem mais próximas dos seus ouvidos? O mesmo vale para furadeiras e saltos altos no sinteco (hoje foi dia de pendurar uma televisão na parede aqui em casa, e, em homenagem ao dia chuvoso, estou com minhas botas barulhentas favoritas) e a música que você escolhe ouvir (a dos outros sempre é irritantemente alta; a nossa, jamais!). Por que, por que?
A resposta está no cerebelo, que ajusta nossos órgãos dos sentidos de acordo com as informações que recebe deles, e também de acordo com suas expectativas de retorno sensorial. Se você abre um vidro de perfume para cheirar e descobre que o odor é muito mais intenso do que esperava, seu cerebelo intervem e aborta a inspiração rapidamente, antes que seu epitélio nasal "frite" com o odor forte. Se seu cérebro tem razões para esperar que o cheiro seja muito forte antes de enfiar o nariz na garrafa, o cerebelo tratará para que a "fungadinha" seja bem curta desde o começo.
O mesmo acontece no caso das marteladas: quando é o seu próprio cérebro quem as comanda, o cerebelo sabe exatamente quando esperar o barulho - e cuida de tensionar os ossículos da orelha interna, reduzindo a amplificação do som logo na entrada. Mas se as marteladas são comandadas pelo cérebro alheio... seu cerebelo não pode fazer nada.
Quem mostrou isso? Confesso que não sei. Ao menos a fonte é segura: soube disso em uma aula particular que ganhei de surpresa do James Bower, grande especialista em cerebelo, sobre "tudo o que você gostaria de dizer aos seus alunos sobre o cerebelo mas não pode porque não é o que os livros didáticos explicam". (Diga-se de passagem, depois da minha aula com ele eu mudei minha aula sobre cerebelo para meus próprios alunos, e agora ensino-lhes "coisas subversivas" sobre o cerebelo. Divertido, esse negócio de a ciência mudar nossos conceitos...). Mas voltando ao assunto: ainda não consegui achar no PubMed (sempre ele) uma referência sobre cerebelo, audição e retorno negativo. Você conhece? Se conhecer, mande para mim, por favor!
Suzana Herculano-Houzel
Ah, sim: essa mesma redução da sensibilidade aos estímulos causados pelo próprio cérebro que o cerebelo faz também é a razão de não conseguirmos fazer cosquinhas em nós mesmos... (vide texto em meu primeiro livro, O Cérebro Nosso de Cada Dia).
Wednesday, January 7, 2009 at 01:15PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
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