Tenho cérebros de boi!
Quem diria: depois de revirar em vão supermercados e açougues cariocas atrás de miolos (suficientemente frescos para virarem objeto de estudo, claro, e não recheio de alguma panela), fui achar cérebros de boi à venda no International Food Market de Nashville. Como Jon me dispensou do cargo de escolhedora-assistente-de-lagostins-vivos-para-o-almoço, fui assuntar na gôndola ao lado, cheia de partes bizarras de porcos: línguas, pés, úteros e algo chamado "pork bungs" que, pela forma, tamanho e proximidade dos úteros, eu só posso pensar que eram a pele dos testículos do bicho. "Hmm, um lugar natural para se encontrar miolos de porco!", pensei, animadamente. Mas não. Pele de testículo merece seu lugar no mercado, mas miolos porcinos, não. Pena. Fui procurar os camarões para o almoço, então.
E logo vem o Jon, todo animado: "você quer cérebros de boi?", ele pergunta, brincando. É sério? Onde? E lá estavam eles, congelados, empacotados aos pares em outra gôndola. É claro que eu quero! Depois de alguma indecisão sobre qual pacote levar - qual parecia mais inteirinho, mais bonitinho? -, escolho um ainda arredondado. Não dá para dizer se o cerebelo está intacto, mas ao menos o córtex está. Descubro que cérebros de boi são tão grandes quando um cérebro de babuíno, ou até maiores. Mas, dada a mesmice do comportamento bovino comparado com o primata, diria que o cérebro do boi tem bem menos neurônios que um cérebro de macaco.
Como saber? Só levando o cérebro para o laboratório - o que, naturalmente, é minha intenção. Coloco o pacote congelado no carrinho, sob o olhar incrédulo do Jon. "É sério? Você vai levar na mala pro Brasil?" Claro que vou! Assim que descongelarem, coloco em paraformaldeído e eles farão companhia aos cérebros de macaco que já estou levando na minha frasqueira recém-apelidada de BrainBox. Só espero que os fiscais da alfândega achem a relação do conteúdo eclético da minha bagagem tão divertida quanto eu: temos aqui roupas para crianças, jogos para o Wii, coisinhas de papelaria, muitos cadernos e artigos científicos, e... cérebros!
Saturday, January 31, 2009 at 12:24PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Direto do laboratório,
Do plantão da neurocientista
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