Meu almoço está se mexendo na pia
Lagostins. Vivos, até o último minuto. Os bichinhos, que no momento ocupam sua última morada na pia da cozinha, serão o almoço de hoje, em preparação para o qual Jon já foi, saltitante (o quanto possível, dados seus 72 anos, duas cirurgias no quadril e uma perna recém-recuperada de um acidente de bicicleta), acender a grelha lá fora.
Como hoje à noite tem feijoada para o laboratório do Jon e amanhã eu resolvi fazer uma moqueca de camarão para ele e Barbara como despedida, Jon tinha a desculpa perfeita para dirigir alguns quilômetros até o International Food Market de Nashville - e eu, claro, fui junto para assuntar. O mercado é um enorme galpão sem aquecimento, onde encontram-se vegetais, frutas e legumes asiáticos e latino-americanos, latas, sucos, óleos e biscoitos de nacionalidades variadas para os que têm saudade da comida de casa, peixes (inclusive vivos, em tanques, para as donas-de-casa asiáticas que não confiam em comida que não se mexe), camarões, carnes frescas e congeladas, e crustáceos vivos. Jon se mune animadamente de pinças gigantes e começa a revirar a tina de lagostins em água gelada atrás dos que se mexem, enquanto eu ajudo a encontrar os que ainda estão vivos o suficiente para merecer morrer em sua cozinha.
Meu almoço, portanto, neste momento ainda se mexe. No entanto, por mais que o meu córtex pré-frontal no momento proteste sobre minha parcela de culpa na morte iminente dos lagostins na pia, mais tarde não terei problema algum em saborear lagostins grelhados (eu espero). Alguma outra parte do meu cérebro - o hipotálamo, talvez? - sabe que eles são comida, e comida tem prioridade sobre qualquer frescura potencial acerca de crustáceos moribundos. Os camarões já mortos, afinal, são desquitinizados (leia-se, têm sua casca arrancada) sem dó nem piedade por minhas mãos - ao lado dos lagostins que ainda fazem barulho com suas patinhas no fundo metálico da pia. Tudo em nome do almoço :o)
Suzana Herculano-Houzel
O almoço consistiu de uma enorme pilha de corpos de lagostins, vermelhos da grelha, banhados na mistura de temperos do Jon - parte carregada de pimenta para ele e Barbara, parte sem pimenta para a pobre mortal aqui. Fiquei olhando alguns segundos para o corpo do lagostim na minha mão, pensando que, para chegar à carne do rabo do bicho, seria preciso dessecrá-lo com minhas unhas. Meu hipotálamo, precisando de comida, falou mais alto, acabou com qualquer resquício de frescura, e em instantes eu estava arrancando cabeças e abrindo um rabo-de-lagostim atrás do outro. Delicioso...
Saturday, January 31, 2009 at 12:08PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
A vida o universo e tudo mais,
Do plantão da neurocientista
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