Por que minhas mãos não tremem
Sempre que venho visitar Jon Kaas, meu colaborador nos EUA, trago café brasileiro (desta vez escolhido até pelo meu marido, especialista no assunto). Aprecio enormemente o aroma que vem da cozinha - mas fico nisso: apesar de beber baldes de café na época da faculdade, dos vinte anos em diante comecei a ter enxaquecas que, como aprenderia em poucos anos, eram disparadas pelo café.
Meu problema não é a cafeína, mas algo mais no café. Ainda assim, como há anos não bebo mais café, em hipótese alguma (salvo o eventual teste para ver se continua me dando enxaqueca - sim, continua), minha ingestão diária de cafeína é bastante pequena, e certamente bem menor do que a do brasileiro (ou americano) médio. O que tem isso a ver com as mãos tremerem?
É que cá estava eu aboletada na mesa de jantar do Jon, fuçando artigos sobre regulação energetica e interação metabólica entre neurônios e glia para a palestra que estou preparando, quando dei de cara com um artigo de 2008 argumentando que os efeitos da estimulação elétrica profunda do cérebro (DBS, de deep brain stimulation), usada para conter os tremores da doença de Parkinson, são devidos (ao menos em parte) à liberação de grandes quantidades de adenosina em resposta à estimulação. Essa adenosina reduz a atividade oscilatória do tálamo, que é a fonte do tremor, e assim o tremor ficaria drasticamente reduzido com a estimulação elétrica.
Acontece que um dos efeitos da cafeína - ou, na verdade, o efeito mais procurado da cafeína, que é o estimulante - é devido justamente à sua capacidade de impedir a ação da adenosina no cérebro. Se uma das ações da adenosina é inibir o tálamo e os tremores associados, a cafeína faz justamente o contrário: promove tremores.
Pronto. Taí uma explicação bastante razoável para duas peculiaridades minhas: por que o café-teste eventual me deixa horrivelmente trêmula - e por que, nas condições habituais de temperatura e pressão, com bem menos cafeína no sistema do que meus vizinhos, minhas mãos praticamente não tremem. Eu pensava que devia ser algo periférico, como alguma diferença na sensibilidade dos músculos ao estresse, mas talvez a estabilidade das mãos venha mesmo é lá de cima, na liberdade das minhas adenosinas de trabalharem sem nenhuma cafeína por perto para atrapalhar.
Muito útil na hora de enfiar linha na agulha ou de dissecar pedacinhos de cérebro. Mas quem mais lucra com isso são os ratinhos que eu opero...


Sunday, January 25, 2009 at 05:45PM
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