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Monday
Jan122009

Sobre como matar formigas

Há alguns meses recebemos visitas noturnas de formigas douradas gigantes. Elas vêm pela janela do jardim, passam pelo alto das paredes em direção aos quartos, e se reunem no canto do teto do corredor. Suas visitas recorrentes aos pontos de encontro de sempre (essas formigas faltaram às aulas do curso básico para insetos meliantes) facilitam minha ronda noturna com a lata de inseticida em punho: sei onde encontrá-las, e não hesito em despejar as piretrinas da vez sobre as formigas, que caem ao chão se retorcendo.

Por que conto isso? Porque recentemente ganhamos, em regime de empréstimo da casa da minha mãe, uma raquete-de-eletrocutar-insetos (e o que mais cair na rede), daquelas que todos os vendedores de sinal têm (exceto quando você resolve comprar uma, claro - donde o empréstimo). A intenção original era matar os pernilongos que ainda aparecem à tarde, mas o eleitorado daqui de casa logo resolveu testar a raquete nas formigas. Eu saquei o inseticida, mas meu marido, empunhando a raquete, foi mais rápido - e o resultado foi... chocante.

Mesmo. A formiga que inaugurou a nova técnica de execução doméstica morreu com um estalo de eletricidade digno de faísca e tudo. E eu me descobri - não há outra palavra - chocada, e duplamente: com o estalo, e com o meu choque com a eletrocução da formiga. Por que aceito alegremente matar formigas com um jato de inseticida (e, confesso, até com uma pontinha de prazer), mas repudio a idéia de eletrocutar uma formiga com uma raquete?

A explicação que me vem à cabeça foi uma descoberta do agora neurocientista Joshua Greene, ainda doutorando de filosofia em 2001, quando publicou um artigo seminal na revista Science mostrando que julgamentos morais, veja só, não são puramente racionais: envolvem regiões do cérebro responsáveis pelas emoções, sobretudo quando o dilema moral em questão é pessoal. Entre outras coisas, Greene mostrou que ainda que o problema e o resultado sejam iguais, tomamos decisões diferentes quando nos consideramos envolvidos pessoalmente na questão. Puxar uma alavanca para desviar um trem e causar a morte de uma pessoa inocente para salvar outras cinco, por exemplo, parece mais aceitável a muita gente do que empurrar com as próprias mãos um inocente de encontro à morte para salvar os mesmos cinco. Quando há envolvimento pessoal (e, nesse caso, julgamo-nos diretamente os agentes da morte do inocente), regiões do cérebro que processam emoções falam mais alto do que a razão - e dizemos então que aquilo é errado.

Acho que meu cérebro protesta da mesma forma contra a execução elétrica das formigas. O inseticida coloca um intermediário conveniente entre minha ação e a morte delas. Claro que eu sei, racionalmente, que as formigas ainda morrem por minha causa - mas parece que o lado emocional do meu cérebro não tem dificuldades em achar que, nesse caso, o agente imediato da morte alheia é o inseticida, e não eu. O estalo da raquete, por outro lado, torna a coisa pessoal demais (e real, também; acho que só matamos formigas, baratas e moscas sem problemas porque elas não gritam...).

Mas imagino que a coisa mude em um momento de fúria. Estou esperando um daqueles fins de tarde de verão no jardim em que os mosquitos começam a subir da grama e atacar canelas inocentes para por meu cérebro à prova. Quem sabe aí salvas de estalos elétricos de mosquitos morrendo aos punhados não soem como música para o meu cérebro?

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