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Aulas, aulas e mais aulas...

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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Tuesday
Nov082011

Vinte anos mais tarde... eu ainda sei jogar vôlei!

Custou entrar para um clube perto de casa e ser arrastada para a quadra por uma amiga dos tempos da escola, mas foi: vinte anos mais tarde, descobri que ainda sei jogar vôlei! Santos núcleos da base e córtex motor, que guardaram os programas necessários bem guardadinhos esses anos todos.

Felizmente esse tipo de aprendizado e a memória correspondente, chamada de procedimentos, são diferentes dos outros, como informações novas que colocamos em palavras. Para essas, não há muito perdão: quanto menos elas são acessadas, maior a chance das conexões correspondentes irem se enfraquecendo com o tempo, cedendo lugar a outras - e maior a chance de cairem assim no esquecimento.

Com os procedimentos, não. O que você não sabe colocar em palavras, mas sabe fazer - e sobretudo se aprendeu antes da adolescência - fica guardadinho lá, em circuitos aparentemente bem mais estáveis.

Bom, quase todos - e é tentando que a gente descobre o que desaprendeu. Primeiro, desaprendi a sacar por cima. O programa motor que cuidava de selecionar os movimentos certos na hora certa deve ter sucumbido ao tempo, porque com certeza estou usando os músculos errados: após quatro anos contínuos de pilates, tenho muito mais força hoje do que quando era adolescente - mas a bola não passa, e sinto-me tentando fazer a bola passar usando os músculos das costas, o que não pode estar certo. 

Mais vexaminoso, contudo, é o bambolê. Quando era criança, achava divertidíssimo acompanhar as tentativas frustradas de minha mãe e tia para manter um bambolê rodando na cintura - o que, para mim e minha irmã, era facílimo. Mas hoje... o diabo do bambolê insiste em cair direto. Terrível. Patético. A dúvida cruel é se só perdi os neurônios que sabiam rodar o bambolê (e aí um pouco de insistência deve resgatar bambolê e saque por cima) ou se a idade acabou com alguma propriedade mais fundamental do meu corpo. Sniff...

Monday
Sep192011

Agora, no TEDx Fiocruz!

Come a em instantes o evento TEDx Fiocruz, incluindo uma apresenta o minha. Acompanhe ao vivo aqui mesmo, ou no site www.tedx.fiocruz.br


Watch live streaming video from tedxfiocruz at livestream.com

Friday
Sep162011

Motivação, homeotermia e o Nadal

Meu pai ligou de longe só para avisar que não perdêssemos a final do US Open, entre o ex-top Rafael Nadal e o top-da-vez Djokovic. Só conseguimos ligar a televisão no terceiro set, quando Djokovic já liderava a partida por 2 sets a zero - mas valeu a pena.

O que se seguiu foi um espetáculo que atraiu a família inteira para o sofá - e deixou a cabeça da neurocientista de plantão a mil. Para começar, porque Nadal deu um show de motivação. Com dois sets já perdidos - e perdidos por um bocado -, o homem deu um jeito de encontrar no cérebro expectativas boas o suficiente para fazer valer a pena o esforço de correr para cá, para lá, para cá de novo (acho que vislumbrar um cheque de 1.8 milhões de dólares ao final da partida deve ajudar um bocado...). Djokovic mandou no jogo o tempo todo, é verdade, exibindo domínio quase perfeito da bola e fazendo Nadal suar muito para correr atrás dela. Mas o que Djokovic tinha de técnica, Nadal tinha de motivação, e tanta que conseguiu quebrar o saque de Djokovic duas vezes, virar o jogo e ganhar o terceiro set. Sua garra era contagiante, e me descobri torcendo por ele simplesmente por conta de seu show de motivação.

Mas o suor era muito, e tão intenso que trocar de camisa várias vezes não resolveu. Se eu pudesse ter ajudado Nadal à distância, teria lhe dito justamente que não trocasse a camisa. A razão é simples, e mostra que o suor de fato não é o problema, mas a solução dele: hipertermia. Do meu sofá, diria que mais que pelo esforço frustrado, talvez a motivação tão intensa de Nadal tenha sido abatida pelo sobreaquecimento do cérebro.

Ser homeotermo, como todos os outros mamíferos e ainda as aves, tem uma série de vantagens, e a primeira delas, quando se trata de se mexer, é que nós já começamos quentes, literalmente: com o metabolismo acelerado, que é o que mantém o corpo aquecido mesmo sem atividade física, temos uma facilidade de fazer os primeiros movimentos do nada.

A outra vantagem de ser homeotermo é que conseguimos sustentar a atividade física por bastante tempo. Atividade física gera calor, e o calor tem tudo para danificar o corpo quando se torna excessivo. Sem maneiras de dissipar ativamente esse calor, répteis são obrigados a parar de correr depois de não muito tempo, ou cozinham por dentro. Mas nós, que aprendemos a suar, temos esse meio de colocar o calor para fora antes que ele nos asse, e portanto conseguimos nos manter em movimento por bastante tempo. É a evaporação do suor que nos resfria, donde minha suspeita de que o Nadal teria durado mais tempo se tivesse ficado com a mesma camisa encharcada a partida toda, ajudando a manter seu corpo longe do sobreaquecimento.

Enquanto a transpiração dá conta de dissipar todo aquele calor extra gerado pelo esforço físico, tudo vai bem. Mas chega um ponto em que o esforço é tanto que não há suor que dê conta - e o sangue começa a esquentar. Aqui começa a hipertermia. E quando ela atinge um ponto crítico, o hipotálamo começa a dar o alarme, que chega na forma da sensação de exaustão - e também de esmorecimento, conforme a atividade do sistema de recompensa de alguma forma deve ser reduzida.

Esmorecer, portanto, é uma estratégia de sobrevivência: apesar de toda a garra, o hipotálamo do Nadal provavelmente detectou os primeiros sinais (ou quintos, nonos, décimos, tamanha a garra do cara), e deve ter tido que mandar parar tanta motivação, em nome de manter-se vivo. No quarto set, Nadal foi muito rápida- e evidentemente da determinação à exaustão. Em casa, nos perguntávamos se não há no tênis uma maneira honrosa de entregar o jogo, que já havia passado das quatro horas de duração real. Aparentemente, não há - ou, se há, Nadal ainda encontrou motivação suficiente para jogar até o final, e sem fazer feio, ainda que já estivesse claro que não era mais fisicamente possível continuar.

Djokovic e seu sistema de motivação ganharam a recompensa enorme dos 1.8 milhões pela sua técnica e determinação, e ficou rindo sozinho na quadra, como deveria mesmo. Nadal perdeu para ele pela sexta vez seguida em uma final de torneio - mas certamente ganhou a admiração de muita gente ao demonstrar que ainda tem muita, muita motivação para continuar tentando...

Tuesday
Aug162011

Papo de crocodilo

Um dia um guepardo, no dia seguinte um crocodilo. Pegar os répteis faz parte de um projeto que Paul Manger e eu estamos desenvolvendo no laboratório dele, na África do Sul, com apoio da National Science Foundation de lá: comparar o tamanho do cérebro e o seu número de neurônios em crocodilos de diferentes tamanhos. A graça do projeto é que crocodilos são uma daquelas espécies em que o corpo do animal continua crescendo continuamente ao longo da vida (ao contrário dos mamíferos em geral, como você). Por isso, são uma espécie perfeita para a gente descobrir se existe, como tanto se crê, uma relação obrigatória entre o tamanho do corpo e o número de neurônios que cuidam dele. Se existir, então crocodilos maiores devem possuir cada vez mais neurônios no cérebro e na medula espinhal; se não existir, então a partir da idade adulta (ou algo assim) o número de neurônios deve permanecer o mesmo, não importa quão enorme o corpo se torne. A resposta? Saberemos em cerca de um ano.

Por enquanto, estamos começando com os animais menores, como o da foto acima - que já estava anestesiado quando eu o peguei, claro (e quem o anestesiou? O Paul, um australiano enorme que tem só um pouquinho de medo de bichos selvagens e estava adorando segurar o bicho embaixo do braço e me mostrar "como ele fica tranquilo quando eu faço festinha no papo dele, porque estimula o nervo vago". Arrã...).

Foi uma experiência um tanto curiosa segurar um crocodilo. Primeiro, porque é daquelas coisas que a gente não pensa que um dia vai fazer na vida. Segundo, porque embora os livros deixem bem claro que répteis são pecilotérmicos (ou heterotérmicos, ou qualquer que seja a classificação hoje), é uma sensação muito estranha segurar um animal... frio. Alguma parte do cérebro da gente tem registrado que "animais = quente", então a pele fria do animal é uma surpresa.

E terceiro... porque eles são lindíssimos. Vistos de perto - o que muito apropriadamente não acontece em zoológicos -, a pele dos animais ainda pequenos é lustrosa, como se fosse encerada, e com um lindo desenho esverdeado no dorso. E no ventre, em todo o ventre do animal, até o papo e as laterais da boca, o que se vê é um mosaico de escamas cada uma com um pontinho, como na foto acima. Cada um desses pontinhos, aprendi com Paul, é um detector de vibração. Ou seja: o crocodilo que jaz placidamente na terra está monitorando o tempo todo as vibrações no solo, como se tivesse milhares de orelhas coladas no chão - ou melhor: o ventre dele é uma enorme orelha colada ao chão, mapeando vibrações, sua intensidade, e de onde elas vêm. Não é à toa que o bote deles é certeiro...

Wednesday
Jul272011

Hoje um guepardo, amanhã... crocodilos!

É, foi meio ideia de jerico aceitar o convite feito com tanta naturalidade pela veterinária. Mas àquela altura eu já estava mesmo não só dentro do terreno do guepardo, como a um metro dele; se ele quisesse me comer, eu viraria almoço ali mesmo, com ou sem protestos da amígdala se vendo ao lado do felino, do córtex cingulado acusando tudo que podia dar errado, do pré-frontal avisando que o lado seguro da cerca era o outro. Então, como a veterinária estava falando amorosamente com o guepardo, fazendo festinhas em sua cabeça e me convidando pra fazer também, eu... fui.

Tá aqui a foto para comprovar. Não estava nos planos para esta nova visita à África do Sul ir a este santuário de animais selvagens, mas ele fica bem no caminho da fazenda de crocodilos aonde estávamos indo buscar espécimes, então... fomos lá conversar com os veterinários, e acabamos ganhando um tour do local - com direito a fazer festinha em guepardo.

Hmm? Crocodilos? É, amanhã é dia de cuidar deles. Depois eu conto como foi...

Tuesday
Jul262011

Desde abril...

Nossa, três meses sem postar nada, e muito pouco antes disso. Se serve como desculpa, é que foi um primeiro semestre intenso, com um curso novo sobre Origem da Vida montado do zero para a Biomedicina, concurso para titular (quem entrou foi meu colega Stevens Rehen, viva ele, merecidíssimo!), curso fora do país, artigos, programa de rádio, crianças, marido...

Mas agora, com tudo voltando aos eixos, voltam os posts. Eis uma prévia de alguns dos assuntos que deixei de postar a tempo, mas que em breve aparecerão aqui:

- Que dinossauros, que nada: legais mesmo eram os Pokémons do Cambriano (a-ha, ficou curioso?)

- O que Doritos em chamas têm a ver com a sua respiração

- Se quase todas as células do seu corpo se renovam, você ainda é o mesmo?

- Por que, já que não dá para proibir todas as drogas, então (para minha surpresa) descobri que eu sou a favor de liberar geral: legalizar, mesmo, e não esse papo do FHC de só descriminalizar (deixando claro, desde já, que eu ainda acho que o uso de drogas é candidato ao pai de todas as ideias de jerico, como sabe quem já andou lendo este blog)

Gostou do aperitivo? Então fique de olho, porque a Neurocientista de Plantão está de volta!

Sunday
Apr032011

Daqui a pouco, na Travessa Leblon - ou no seu computador!

Hoje, domingo 3 de abril, começa a série Mulheres na Ciência, um talkshow na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, e a primeira entrevistada serei eu. Vamos conversar sobre as diferenças reais entre cérebros de homens e mulheres (não essas que se ouvem por aí), a importância das expectativas sobre meninos e meninas, como é ser mulher cientista lá fora, as vantagens de ser mulher cientista no Brasil. O evento é gratuito e terá a participação do público, que também pode participar pela internet, no site www.verciencia.com.br, que fará a transmissão ao vivo.

Começa às 19h. Participe - e, se não puder, então assista depois!

Thursday
Mar242011

Neurocientista também cozinha: bolo de chocolate sem farinha

Esta é para o pessoal que é chegado num bolo de chocolate e fica triste de achar que não vai mais poder cair de boca porque resolveu cortar o gluten da dieta (por exemplo para tentar acabar com a enxaqueca): resolvi socializar minha receita de bolo de chocolate sem farinha alguma, adaptada de um livro da Nigella. É tão fácil de seguir quanto protocolo (bem escrito!) de laboratório. Seguinte:

- Comece derretendo em um pote pequeno dois tabletes grandes de chocolate amargo (hoje de 170 g cada, enquanto os fabricantes não resolverem diminuir ainda mais o tamanho sem reduzir o preço). Pode ser no microondas, mesmo; é só ficar de olho para não deixar queimar...

- Amoleça 125 gramas de manteiga, também no microondas, e misture ao chocolate derretido.

- Em uma tigela maiorzinha, bata dois ovos inteiros com 75 gramas de açúcar, mais quatro gemas separadas das claras, até a mistura ficar razoavelmente lisa, e então misture aqui o chocolate com a manteiga.

- Em outra tigela grande, bata as quatro claras em neve até ficarem firmes, com uma pitada de sal ao final (para os quimicamente curiosos: o sal ajuda a desnaturar a albumina do ovo e formar espuma), e então bata junto com as claras em neve 100 gramas de açúcar.

- Feito? Está quase pronto: agora transfira aos poucos, às colheradas, mesmo, as claras em neve para a tigela com o chocolate. Misture gen-til-men-te para não desfazer as bolhas da clara, porque é isso que vai fazer o bolo subir.

- Despeje a massa em uma forma untada e polvilhada (com maizena ou polvilho, óbvio, não com farinha de trigo, né? Lembra que a razão de ser deste bolo era não ter gluten!) e leve a forno já aquecido para assar por uns 35-40 minutos, ou até a casca ficar morena e quebradiça. A forma deve ser GRANDE, porque a massa vai dobrar de tamanho!

Muito sinceramente: quando faço esse bolo com meus pais aqui em casa, em 15 minutos já não sobra mais uma migalha. Tomara que a sua família goste tanto dele quanto a minha!

Thursday
Mar242011

Uma ode ao cérebro

Já recebi o vídeo de duas pessoas que não se conhecem (muito obrigada Sérgio e Karina!), mas ele ainda está com "apenas" 35 mil visitas no YouTube desde sua publicação ontem, então talvez você ainda não tenha visto: é a nova criação de John Boswell, que encabeça o Symphony of Science, um projeto que pretende divulgar conhecimentos e filosofia em forma de música.

Talvez você ache um pouco irritante o resultado do AutoTune ou algoritmo similar que Boswell usou para transformar as palavras de cientistas do porte de Vilayanur Ramachandran, Oliver Sacks e Carl Sagan em música. De fato, soa um tanto artificial. Mas é na forma de música que a gente nota a poesia da fala desses cientistas, seja durante palestras do TED ou programas de televisão. Destaque para o chorus de Jill Bolte Taylor (a "neurocientista que curou o próprio cérebro"), que, ahn, "canta" que "information in the form of energy streams in simultaneously through all of our sensory systems, and then it explodes into this enormous collage of what this present moment looks like, what it feels like, and what it sounds like, and in this moment we are perfect, we are whole and we are beaufitul".

PS. Agora fiquei com vontade de rever os vídeos do Carl Sagan. O homem foi execrado por muitos por ousar colocar a ciência na boca do povo, ou ao menos tentar - o mesmo que aconteceu com Isaac Asimov, outro de meus autores favoritos...

Wednesday
Mar162011

Para comer sem gluten

Escrevi a coluna da Folha desta semana sobre como várias pessoas (eu inclusive) descobrem que suas enxaquecas desaparecem quando eliminam radicalmente o gluten de suas dietas, e várias pessoas escreveram perguntando sobre como fazer isso. É bem mais fácil do que parece, mas seguem aqui algumas dicas.

O que não comer: nada que tenha trigo, cevada ou centeio em sua composição. Isso inclui tudo o que seja feito com farinha de trigo, então lá se vão massas, bolos, pães e biscoitos de modo geral - bom, pelo menos os mais fáceis de encontrar em supermercados, que são feitos com trigo. Também inclui todos os pães à base de trigo, inclusive os "integrais", "naturais" ou o que for. E inclui, para a tristeza de alguns, a cerveja, feita à base de cevada (oooohhh...). A parte boa é que morar no Brasil torna a tarefa fácil: por lei, todos os rótulos são obrigados a indicar se o alimento contém gluten ou não. Por razões de segurança, aqueles que não contêm gluten em sua fórmula mas são feitos em fábricas que processam gluten também se dizem conter gluten. É o caso de alguns iogurtes. Mas para quem não é celíaco mesmo mesmo, esses alimentos em geral são seguros.

O que comer, então? Massas de arroz, fáceis de encontrar na prateleira de produtos orientais do seu supermercado favorito; pães à base de arroz ou mandioca (meu favorito é o que eu mesma faço, à base de polvilho azedo); biscoito de polvilho; bolos à base de creme de arroz ou fubá, ou, meu preferido, bolo de chocolate sem farinha. Hmmmm :o)