Hoje

De volta, após um mês de trabalho especialmente duro seguido de... férias!!!

 

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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Tuesday
Jul272010

Palmadas, vergonha nacional

Deu na Folha de ontem: 72% dos 10.905 adultos entrevistados receberam castigos físicos quando crianças, e 54% do total são contra o projeto de lei que "estabelece o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante". Pior ainda: 69% das mães e 44% dos pais batem em seus filhos.

Aaaaarg. Tenho vergonha de pertencer a um país assim, onde bater em velhinhos é crime, maltratar animais de estimação dá cadeia, mas a maioria da população acha normal e correto bater em seus filhos, e é CONTRA ter seu "direito de bater nos filhos" negado pelo Estado. O mesmo país que, de forma análoga, precisou de uma lei para explicar aos maridos que não podem bater em suas mulheres, agora protesta pelo direito de bater em seus filhos. Vergonha, vergonha, vergonha.

Aproveitei a oportunidade de uma reunião no prédio da Folha ontem para sugerir mais uma análise dos dados da pesquisa da Datafolha: seriam os adultos que apanharam na infância aqueles que hoje são contra a "lei das palmadas", e portanto a favor do castigo corporal, enquanto os adultos que não apanharam hoje são a favor da lei? Aposto que sim. Como disse na coluna de hoje, no caderno Equilíbrio, o cérebro que sofre violência muda. Alguns se revoltam e passam a abominar a violência - caso do meu próprio pai, por exemplo, como ele me disse ontem ao telefone, ao me ouvir comentar, chocada, os dados da Folha. Mas esses, infelizmente, são minoria. A maioria, agredida pelos pais em criança, passa a achar a violência natural.

Há explicação para isso (que não coube na coluna da Folha): quando somos crianças, o cérebro não consegue vincular nada de negativo à própria mãe; a amígdala simplesmente não faz a associação. Com outros indivíduos agressores, sim; com a própria mãe, não. "Qualquer mãe serve em tempos turbulentos", como diz Robert Sapolsky, neurocientista especializado em estresse.

Resultado: a criança que apanha da mãe tem medo da punição, mas não acha que a mãe é má, ruim, ou está errada; vira um adulto que acha que apanhou "porque mereceu"; acha que dar palmadas é certo, porque se achar errado, a implicação é que a mãe estava errada; e, portanto, segue o exemplo e bate em seus próprios filhos, perpetuando o ciclo vicioso. E ainda exige que o estado lhe assegure o "direito" de bater em suas crianças - "necessário", porque esse adulto acha que falar, conversar, dialogar, dá trabalho demais. É vil, vil, vil. Envergonhem-se, 54% da população. Usem seu córtex pré-frontal e revejam sua opinião.

Tuesday
Jul272010

O lado bom do cocô

O email era alarmista, e, como tantos outros, quase teve imediatamente o destino da lixeira. Trocando em miudos, a mensagem, repassada a mim e vários outros pesquisadores por um doutorando do Instituto, era a seguinte: "não compre iogurte Activia, pois ele é feito com fezes!". Sim, de fato os tais microorganismos que caracterizam a contribuição do iogurte Activia para a boa composição da sua flora intestinal (que por sinal não é flora, nem fauna, pois bactéria não é planta nem animal!) habitam regularmente o intestino de humanos. Logo, deduz "brilhantemente" o email, numa falácia infantil, a fonte das "bactérias boas" do iogurte Activia seriam... fezes humanas misturadas ao iogurte!

A falácia é que uma coisa não implica a outra. Afinal, bactérias são rotineiramente cultivadas em laboratório, em placas de cultura perfeitamente limpas e estéreis onde elas se reproduzem sobre camadas de gelatina. Supus que tal fosse a origem, perfeitamente inócua, das bactérias do Activia, descobertas e registradas pela Danone; nesse caso, nada contra ingerir bactérias de origem tão pura, mesmo que o habitat normal delas (e procedência original) seja nossos intestinos. Aliás, não fosse esse o seu habitat, de nada serviria ingerir as ditas-cujas no iogurte.

Pensei em dar ao email o mesmo destino da mensagem imbecil que, dois meses atrás, exortava o leitor a não se vacinar contra a gripe H1N1; pensei em escrever de volta ao doutorando dizendo que a mensagem era alarmante sem razão de ser; mas ela acabou ficando na caixa de entrada.

(Em tom escatologicamente relacionado, no New York Times de 12 de julho de 2010 o escritor Carl Zimmer relata um estudo recente sobre como os micróbios que abrigamos, dez vezes mais numerosos que nossas proprias células, equilibram nosso corpo. No estudo publicado no Journal of Clinical Gastroenterology, liderado por Alexander Khoruts, gastroenterologista da Universidade de Minnesota, uma mulher com diarreia crônica incurável ficou boa em apenas um dia após receber em seu cólon uma injeção de... fezes do seu marido, processo pouco usado mas conhecido da ciência chamado, muito apropriadamente, de "transplante de fezes". Khoruts, que testou a flora microbiana intestinal da mulher antes e depois do transplante, explica. Antes, "as bactérias normais não existiam nela"; depois, sua não-fauna, não-flora intestinal se normalizou, graças à colonização pelas bactérias fecais doadas pelo marido. "Para você, dou até meu cocô", quem diria, é uma prova de amor...)

A estória do Activia teria ficado por isso mesmo não fosse minha birra com o glúten, que resolvi há dois anos cortar da minha alimentação, com resultados maravilhosos. Não digo que funcione para todos, mas para mim é muito melhor a vida sem pães, massas, bolos e biscoitos - talvez sinal de uma leve intolerância ao glúten, subclínica, como me disse um médico. Mas enfim. Na falta do Nestlé branco de sempre, esgotado no supermercado, tinha um Activia natural na geladeira, que seria parte de meu café da manhã de ontem. Seria, se não fossem as palavras: "contém glúten". Como assim, se os ingredientes são apenas leite integral, leite em pó desnatado, e fermento lácteo, quando o glúten é encontrado somente no grão de trigo e alguns outros cereais?

O número do atendimento ao consumidor estava no rótulo, ainda tinha 15 minutos até o táxi chegar, então resolvi testar a experiência de falar com o SAC da Danone - e, de quebra, aproveitar para tirar a limpo a estória do "iogurte-feito-com-fezes". O menu eletrônico era surpreendentemente curto, e em instantes estava eu falando com uma atendente. Que me explicou, em um tom bem informado e natural, sinal de que não estava apenas lendo de um monitor, que o aviso era apenas para alertar às pessoas realmente intolerantes a qualquer resquício de glúten que, por causa das máquinas compartilhadas com outros produtos, poderia haver traços de glúten no Activia - mas apenas traços. Muito bom.

"E quanto ao fermento lácteo, como essas bactérias são produzidas?", perguntei, esperando (torcendo!) que a resposta fosse "em cultura estéril, em nossa fábrica". Resposta, meio titubeante: "são produzidas como em todas as outras empresas, a partir de fermento lácteo". Não, não, isso não responde à pergunta. Elas são cultivadas na fábrica, ou são extraídas de plantas, ou de animais? "São extraídas de animais, senhora".

Hmmm. Agradeci e desliguei o telefone tentando me convencer de que não há nada mais natural do que recolher e purificar bactérias de uma fonte naturalmente enriquecida, ou seja, fezes animais, ou no mínimo seus intestinos, eliminando todos os outros contaminantes - inclusive as bactéricas E. coli, mais conhecidas como coliformes fecais, responsáveis por no mínimo baitas dores de barriga em altas doses. Não funcionou. Minha ínsula anterior olhou para o potinho de iogurte e mandou pousar a colher, desgostosa com a imagem.

Mas antes que você jogue no lixo todos os potes de Activia, leitor, só mais um pouquinho de paciência. Notei que minha pergunta não estava completa. É claro que a origem do bacilo Dan regularis é o intestino animal, se não o humano, pois é lá seu habitat natural. Mas isso não significa que os potes de iogurte recebam gotinhas de fezes nem extratos mais ou menos purificados delas.

Liguei de novo para o SAC (se quiser, ligue você mesmo: 0800 7017561). Faço minha pergunta agora de maneira mais precisa, e Paloma, outra atendente, me responde tranquilamente: o bacilo tem origem animal, mas ele é cultivado, puro, em laboratório, e adicionado ao iogurte. Insisto, refaço a pergunta de outras formas. Não, senhora; trabalhamos somente com culturas puras em laboratório. Certo.

Constato, assim, o poder da ínsula anterior, parte do córtex cerebral que registra nosso estado corporal interior e nossas sensações subjetivas, como o nojo/desgosto. O iogurte é o mesmo, e eu sempre gostei do seu sabor e textura. Mas a suspeita de algo de podre em seu meio foi suficiente para me fazer, por algumas horas, torcer o nariz e pousar a colher. Se minha ínsula anterior agora está feliz novamente? Vou lá na cozinha testar...

Sunday
Jul182010

Não existe palmada bem dada

Ah, que coisa boa ver projetos sensatos, coerentes e inteligentes de legislação. Concordo que pais que dão uma palmada em seus filhos não devam ir presos, mas já era hora de a sociedade parar de achar normal crianças levarem palmadas, beliscões e puxões de orelha. Como esperar ter uma sociedade de adultos que repudiam a violência quando eles crescem aprendendo que palmadas são uma punição "necessária" e ouvindo seus pais e pares dizendo que "batem para educar"? A neurociência já aprendeu que violência muda o cérebro e gera mais violência (ou impotência, meio caminho andado para a depressão). E como fica o amor de um filho por seus pais agressores? Misturado com medo?

Para meus filhos, certamente não: deles quero apenas afeto e admiração, sem jamais uma mácula de medo no olhar. Medo deveria ser a última coisa que uma criança precisasse sentir dos pais. E antes que proteste o leitor que acha necessário aplicar palmadas para educar e ironize perguntando, provocador, se de fato jamais bati em meus filhos: não, jamais. Aqui em casa se conversa. Quem sabe falar não precisa bater.

Thursday
Jul152010

Engane-me se puder!

Adoro a nova onda norte-americana de colocar ciência nos seriados. House vive lendo revistas científicas e citando estudos, e até já pôs o truque do espelho do Ramachandran em prática. The Big Bang Theory não é sobre ciência, é fato - mas é sobre cientistas. De um jeito estereotipado, também é fato, mas ainda assim consegue fazer uma estrela improvável do pirado, nada-socialmente-ajustado porém divertidíssimo Sheldon. E agora descobri Lie to me, onde o cientista Cal Lightman, alter-ego de Paul Ekman, estudioso das expressões faciais universais das emoções na vida real, coloca esses conhecimentos em prática.

Descobri a primeira temporada na prateleira da eclética locadora da esquina, aonde tinha ido procurar filmes para rechear meu iPad e as horas mortas em vários aeroportos e aviões ao longo de 20 dias de reuniões, palestras e congressos por esse mundo afora. Fui atraída pelo rosto sério do Tim Roth, o ator principal, me encarando, como que me analisando, na capa, com certos ares de Dr. House, e pelo mote prometido: cientista ajuda polícia e agências governamentais variadas a desvendar crimes conversando com suspeitos e identificando mentirosos puramente através da análise de suas expressões faciais. Tudo isso apoiado, na ficção como na vida real, nos estudos de Paul Ekman, quem catalogou o leque de combinações diferentes de contrações musculares faciais e o que elas deixam transparecer involuntariamente sobre as emoções do seu dono, qualquer que seja a etnia ou cultura (e com uma boa dose de Hollywood OS, que deixa todos os vídeos e imagens de todos os bancos de dados acessíveis na ponta dos dedos em monitores enormes). Ekman, aliás, é consultor científico do seriado.

É legal ver um cientista-empresário na tela, ganhando dinheiro com seus conhecimentos; seria ótimo se alguém conseguisse desfazer a ideia maldita de que cientista-tem-que-ganhar-pouco-porque-tem-o-privilégio-de-fazer-o-que-gosta (como se ninguém mais fizesse isso), ou cientista-abre-mão-de-bens-materiais-em-nome-de-gerar-conhecimento-para-o-mundo (como se fosse feio ganhar dinheiro para fazer algo nobre que beneficia a todos). A história também tem alguns achados interessantes, como Locker, o assistente que resolveu adotar a "honestidade radical", com suas vantagens (dizer a verdade dá muito menos trabalho pro cérebro!) e muitas desvantagens; Ria Torres, uma "natural" em ler emoções humanas, recrutada logo no primeiro episódio em um aeroporto onde trabalhava como agente de segurança; e a filha adolescente de Lightman, que lhe ensina a importância de deixar passar umas mentiras de vez em quando. A chata do seriado, infelizmente, é a parceira do Lightman, Gillian Foster, psicanalista cujo papel os roteiristas decidiram que seria explicar tudo, fazendo dela uma chata de galochas (e a atriz não ajuda nem um pouco).

A série também tem ares de House: Lightman é no-nonsense, um tanto associal, e sempre há duas tramas paralelas, desvendadas no final em um certo momento a-ha!. Mas, como o tema são expressões faciais de domínio público e não síndromes raras de que só alguns médicos ouviram falar, fica bem mais divertido para o espectador: nós, meros mortais, temos uma chance honesta de adivinhar o final...

Wednesday
Jun302010

Neurociência e guerra em DC

Estou voltando de um fim de semana em DC, onde estive em uma conferência em tributo a Wally Welker, neurocientista que fez escola: boa parte dos principais especialistas em neuroanatomia comparada estudou com ele ou com seus alunos. Eu mesma, que não o conheci, colaboro com dois de seus alunos, Jon Kaas e Jim Bower - o que pelo jeito já justificou colocarem meu nome na árvore genealógica de Welker criada para o evento.

Sinto-me honrada. Welker descobriu os "animúnculos" no córtex cerebral que contêm a representação da superfície corporal, expandida para aquelas partes que são as mais relevantes para o comportamento (bigodes de ratos, gatos e camundongos, rabo do macaco-aranha, apêndices nasais da toupeira-de-nariz-estrelado, estes descobertos por Ken Catania, F2 de Welker); defendia o estudo da cinemática do comportamento em comparação com a atividade cortical; e deixou uma enorme coleção de cérebros de mais de uma centena de espécies de mamíferos, catalogados, fatiados e corados histologicamente. A coleção digitalizada está disponível online para quem desejar usá-la, em www.brainmuseum.org. E a coleção física, originalmente hospedada na Universidade Michigan, agora está protegida sob os auspícios do Museu do Exército dos EUA. Não tanto porque o exército tenha interesse bélico direto em uma coleção de cérebros - mas porque o curador e a diretora do Museu, Archie Fobs e Adrianne Noe, notaram que a coleção é realmente única e valiosa para a ciência (e, claro, porque o exército tem o orçamento necessário).

Donde o local onde a conferência foi realizada: o Walter Reed Army Center, nos arredores da capital norte-americana. Acho que foi o lugar mais peculiar onde já estive a trabalho. O auditório era excelente (e foi de graça, o que reduziu o valor das inscrições), mas as refeições eram feitas em locais no mínimo estranhos, para não dizer deprimentes. Os almoços eram na cafeteria do hospital central do exército, logo ao lado, por onde transitavam em suas cadeiras de rodas militares com o corpo mutilado em várias combinações: sem braços, sem pernas, sem dedos. Ver esses pacientes, detonados em nome de seu país e agora circulando em cadeiras de rodas ao sol, era apenas lembrança de que nos quartos estavam os casos ainda mais graves, de corpos e mentes tão destroçados que sair da cama não é possível. Conquista duvidosa da ciência médica: fica-se estropiado em graus impressionantes, mas vivo. Se vale a pena sobreviver assim? A taxa de suicídio é de 20% entre os que deixam o hospital...

E o jantar... Ah, o jantar. Ofereceram-nos um banquete: comida deliciosa servida em belas mesas espalhadas na sala principal, espaçosa, do Museu do Exército, entre maquetes de fetos normais e nem tanto, manequins de cera mostrando estragos variados causados à face por projéteis, instrumentos cirúrgicos e recriações de salas de operação no campo de batalha, com direito a muitas imagens de soldados feridos, cortados, explodidos. As sobremesas, cheesecake e bolo de chocolate e frutas vermelhas com creme, maravilhosas, estavam em uma linda mesa à frente de... um painel de próteses de pernas amputadas em alturas diferentes. Iluminador. Ainda bem que o papo na mesa estava animado, entre meus alunos, Jim Bower (neurocientista de ideias rebeliosas e interessantíssimas sobre o cerebelo), Jeroen Smaers (antropólogo especialista em primatas), Fenna Krienen (que usa fMRI para estudar quais partes do cérebro funcionam em conjunto umas com as outras, muito legal), Harry Burgess (especialista em genética do desenvolvimento do peixe paulistinha) e eu. Essa é a parte mais bacana dessas reuniões, que eu queria que meus estagiários descobrissem em primeira mão: o social, o bate-papo, o conhecer-o-rosto-por-trás-dos-artigos. Ainda assim, demos o fora do Museu o mais rápido possível.

E no dia seguinte, a guera tomou conta do auditório: Ted Jones e Bud Craig, enfrentando-se após a linda palestra de Craig sobre o papel do córtex da ínsula na interocepção (o registro das sensações internas do corpo). Entre outros comentários belicosos, Jones afirmou que Craig era o único que encontrava a projeção para a ínsula a partir de uma região específica do tálamo; Craig, sereno, convidou Jones "mais uma vez" a visitar seu laboratório e conferir em primeira mão os seus achados - ao que Jones retribuiu com um convite para Craig vir ao seu laboratório "aprender neuroanatomia com quem sabe, porque você obviamente não sabe nada" (!!!).

Só não fiquei surpresa porque Jon Kaas havia me contado na véspera detalhes sobre a briga de longa data entre os dois pesquisadores, mas foi chocante, ainda assim - embora "iluminador", de certa forma" essa demonstração de animosidade entre cientistas. A guerra, infelizmente, não é estranha à ciência.

 

Friday
Jun182010

Um baita prêmio!

Então eu vou contar, porque a língua está coçando: recebi esta semana a notícia de que ganhei, junto com um punhado de outros talvez 12 pesquisadores mundo afora, o Scholar Award da James McDonnell Foundation norte-americana, uma fundação criada por esse aviador para apoiar pesquisas em duas áreas: câncer e cognição humana.

Já li e reli e re-reli o email de notificação oficial umas 35 vezes (and counting), já dei pulinhos na sala, já gritei em comemoração: meu laboratoriozinho, de pequenos 21 metros quadrados no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, agora contará com 600 mil dólares (isso, você leu certo, mais de 1 milhão de reais!) para bancar nossa pesquisa pelos próximos 6 anos (atenção, ladrões de plantão: não vem UM centavo sequer para o meu bolso! É favor não me sequestrar, o dinheiro fica com a UFRJ!).

É uma honra extraordinária entrar para o grupo seleto de pesquisadores apoiados pela McDonnell Foundation. Até onde pude ver no site deles, acho que sou a primeira brasileira a entrar para o clube.

Quero compartilhar a notícia com meus leitores e dizer para aqueles que também são cientistas que não é para desanimar só porque estamos abaixo da linha do Equador: como vocês vêem, até um grupo de 16 tupiniquins trabalhando apertados em 21 m2 têm condições de competir com nossos pares estrangeiros.

Mas o que eu queria mesmo mesmo era que isso servisse de inspiração para nossos empresários brasileiros, aqueles que têm tantos milhões de dólares que ficam procurando o que fazer com o dinheiro. Senhoras e senhores megaempresários, pensem em usar o dinheiro que lhes sobra para deixar um legado que faz o bem ao mundo todo, começando pelos brasileiros, criando fundações privadas para investir na ciência...

Thursday
Jun102010

Para escrever no iPad, um cotonete. Santa baixa tecnologia!

Claro que eu não sosseguei enquanto não consegui o meu iPad. Foi preciso arrastar a família duas vezes ao shopping mais próximo, digo, menos distante, da Disney (sob os olhares divertidos do meu marido, impressionado com o monstro que ele criou: fui de no-tech a tech junkie - moderada, por favor - em pouco mais de um ano de convivência), mas consegui. Já descobri que o iPad é perfeito para ler meus PDFs de artigos de neurociência (lamento, Amazon, ele é muuuuito melhor que o Kindle DX para isso, ainda mais porque é colorido), para manter os RSS dos ditos artigos em dia, para fazer tudo isso da cama... e agora, acabo de descobrir, também para usar como bloco de rascunhos ultra-ecológico com o auxílio de um... cotonete.

É isso aí: um cotonete. Adoro soluções low-tech!

O problema surgiu quando descobri um aplicativo chamado Penultimate, perfeito para escrever diretamente na superfície do iPad: serve para tomar notas, brincar com as crianças de forca ou jogo da velha, para rabiscar equações, quem sabe até como caderno de seminários. Só que mesmo meus dedos delicados ainda são meio grossos para a brincadeira. A página do aplicativo falava de um stylus, uma canetinha para o iPad. Como não esperava encontrar uma à venda aqui tão cedo, fui à internet fuçar alternativas.

Elas existem - mas envolvem costurar um canudo de tecido de uma meia anti-eletricidade-estática ao redor de um lápis. O tal tecido tem fio de prata, para conduzir a eletricidade do seu dedo até a tela do iPad. Não tenho uma meia dessas. Outra alternativa, por favor?

Um outro site mencionava em um cantinho que um cotonete molhado funcionaria, mas que ele precisaria ser envolto em algodão até em cima, para ficar em contato com a mão e colocar a carga do dedo em contato com a tela. Hmmm. Já que é isso que é preciso, então a neurocientista de plantão foi ao banheiro buscar um cotonete para tentar uma versão ainda mais simples do stylus para iPad.

E funciona! Por centavos de um real, faça você mesmo sua canetinha para brincar no iPhone, iPad ou qualquer outra tela sensível ao toque dos dedos:

1- pegue um cotonete (limpo, por favor);

2- molhe-o em sua boca (é isso mesmo, basta colocar o cotonete na boca e rodá-lo sobre a língua, como um pirulito. Não é nem um pouco nojento, pode acreditar);

3- segure-o como um lápis, tomando apenas o cuidado de encostar um dos dedos no algodão umedecido e...

4- voilà! Você pode escrever e desenhar à vontade na sua telinha ou telona :o))

 

hehehehehhe a alta tecnologia é linda, mas a baixa também é...

Thursday
Jun102010

Pensamentos alimentícios pós-Disney: Barbara Kingsolver tem razão

Ah, que saudade de comida de verdade. Foram oito dias comendo na Disney, onde o cardápio consiste essencialmente em hambúrgueres, batatas fritas e nuggets. Não quer fritura? Tem salada, claro - um punhado de alface coberto de... molho gorduroso. Legumes? Tem, sim, no restaurante do hotel, mas só à noite - e fervidos, direto do pacote congelado. Tudo isso regado a baldes de refrigerante.  Ah, eu esqueço da perna de peru assado, que no nosso país alimenta três, mas lá ė porção individual.

 

Não é à toa que os carrinhos elétricos estão populares entre adultos na Disney; os ossos nao dão conta de transportar tanta banha. Os músculos atrofiam por falta de exercício, dificultando ainda mais a tarefa de carregar o próprio peso sem ajuda externa. Resultado: todos os ônibus que pegamos entre parques e hotel precisavam de cinco minutos a mais para embarcar o carrinho de algum americano arrastando sua gordura. (Comento com meu marido que não consigo ter pena de tanta gente obesa. Não são "vítimas do sistema", mas criadoras dele, ou no mínimo compactuantes. Ninguém é obrigado a comer porcaria. Minha balança que o dirá, mas acho que consegui voltar para casa com o mesmo peso de antes.)

 

Tamanha abundância tem seu lado educativo quando se viaja com duas crianças: até meus filhos ficaram chocados com a predominância de gente gorda (contávamos nos dedos de uma mão quantos passageiros de cada ônibus tinham peso normal), e entenderam por que não dá para comer hambúrguer com batata frita ou pizza em todas as refeições. Santo feijão com arroz, que complementa o bife de todas as refeições enquanto eles não aceitam comer legumes. (ah sim, ah sim: meu filho e eu comemos o melhor milho cozido de nossas vidas em um parque da Universal - apropriadamente, talvez, no restaurante da área Jurássica, "rural", o que tinha algo mais parecido com comida de gente).

 

Talvez inspirada por essa falência alimentar do sistema (e pelo meu estômago, ávido por sair da dieta de nuggets-com-salada) eu tenha finalmente resolvido ler o livro Animal, Vegetable, Miracle, de uma de minhas autoras favoritas, Barbara Kingsolver (publicado aqui como "O mundo é o que você come"). Adoro seus livros de ficção e contos, mas ainda não havia chegado a hora de ler sobre sua experiência de passar um ano comendo apenas o que plantava ou criava em sua fazenda. Agora veio a calhar. Acabo de descobrir, por exemplo, que os fazendeiros americanos produzem hoje 3900 calorias por habitante por dia - o dobro do necessário, e 700 calorias a mais do que se produzia em 1980. No meio tempo, a indústria alimentícia descobriu como enfiar as 700 calorias (desnecessárias) adicionais goela abaixo de seus consumidores: com porções gigantescas e copos que mais parecem baldes. E, com a quebra do sistema de agricultura regionalizado, ainda se gasta hoje uma quantidade enorme de energia para transportar esses alimentos até as bocas dos consumidores.

 

Nem tudo está perdido, claro. Nos melhores restaurantes da Disney, pode-se pagar mais caro por uma porção menor, mais nutritiva e saudável de comida do que nas lanchonetes. E as refeições na casa do Jon, meu colaborador em Nashville, são leves, deliciosas - e sempre incluem algo fresco da sua própria horta, sejam tomates, pimentões ou rúcula, mesmo no inverno. Barbara Kingsolver tem razão; muita coisa muda quando se sabe de onde a comida vem.

 

 

 

(Nota: curiosamente, a proporção de gordos e obesos na Disney parece ser beeem maior do que nas outras cidades dos EUA que visito com frequência. Estarão os habitantes da Flórida especialmente gordos, ou será que a Disney exerce algum tipo de atração diferencial sobre os especialmente gordos? Mistééério...)
Thursday
Apr292010

O efeito Chico Xavier sobre as aulas de neurociência

Os sentidos são nossa capacidade de detectar estímulos - ou seja, variações de energia. Se não há uma variação de energia, não há estímulo. Se há uma variação de energia, mas não temos no corpo células capazes de se deformar ou se alterar de alguma forma em resposta a essa variação de energia e comunicar essa deformação ao sistema nervoso, não há sensação correspondente. Por isso não somos capazes de detectar variações de energia nuclear, por exemplo, ou de campos magnéticos ou elétricos: não temos células sensíveis a eles. A energia está lá, e pode até ter consequências sobre o corpo (vide acidentes nucleares e explosões atômicas), mas só sabemos disso quando o corpo já começa a sofrer as consequências - e, no caso, são elas que detectamos pelos sentidos.

Donde a pergunta inevitável, em tempos de Chico Xavier se tornando fenômeno de bilheteria nacional, durante a primeira aula sobre os sistemas sensoriais para minha turma de psicologia na UFRJ: e os espíritos? Como nós os detectamos?

Resposta em palavras escolhidas a dedo pela Neurocientista de Plantão: até hoje não foi detectada nenhuma forma de energia que possa corresponder a manifestações espíritas. Nenhum aparelho acusa qualquer tipo de variação de energia externa ao cérebro que possa ser relacionada à sensação de "presença espírita" relatada por algumas pessoas. Se esse for de fato o caso, "espíritos" não podem ser "detectados pelos sentidos".

"Mas não pode ser o caso que essa forma de energia existe, e só não sabemos como ela é, então não temos aparelhos para acusá-la?" Pode, teoricamente pode. "E será que algumas poucas pessoas não possuem os receptores sensoriais necessários para detectá-la, e a maioria das pessoas não?" De novo, teoricamente sim.

Mas, enquanto não houver uma variação de energia "espírita" detectável e não for encontrado um tipo de célula no corpo sensível a ela, não dá para falar em "sentir" espíritos - não no sentido dos outros sentidos.

Por outro lado, há vários estudos em neurociência que mostram que a percepção de presenças atribuíveis por exemplo a espíritos está associada a um padrão de ativação em regiões do córtex, como o parietal posterior e o lobo temporal. "A-ha, então os espíritos agem diretamente sobre o córtex cerebral!", podem dizer alguns. É uma interpretação possível - assim como é possível a outra interpretação, de que a percepção da presença do espírito é uma criação do seu córtex temporal. Mas enquanto a interpretação espírita não é testável pela ciência, a segunda interpretação é - e sim, é possível *provocar* uma sensação espírita apenas manipulando a atividade do cérebro...

Se Deus/espíritos/almas são uma criação do seu cérebro ou os criadores dele, portanto, fica a critério de cada um. A ciência nem prova, nem desaprova...

Tuesday
Apr132010

Flashforward: e se você vislumbrasse seu futuro?

Eu adoooro ter um seriado à mão para vegetar em grande estilo entre aulas, artigos, palestras e outros compromissos. Enquanto House não volta, Two and a Half Men fica chato e a Warner só passa reprises do Big Bang Theory, a dica do meu cunhado foi preciosa: Flashforward, um seriado da ABC que, até onde sei, ainda não passa aqui.

O mote é ótimo: em 6 de outubro de 2009 ocorre um blackout - não de eletricidade, mas de mentes, e toda a população do planeta apaga durante dois minutos e 17 segundos. Nesse tempo (enquanto mega acidentes de carro, avião e o que mais estivesse se mexendo acontecem e 20 milhões de pessoas morrem), boa parte de quem sobreviveu teve flashforwards - lampejos de seu futuro seis meses adiante, ou mais exatamente do que estarão supostamente fazendo às 10 horas da noite, Pacific Time, do dia 29 de abril de 2010.

Enquanto alguns têm visões que lhes dão esperanças, nem todos gostam do que vêem. Ou do que não vêem, presumivelmente porque estarão mortos em seis meses. E aí vem a questão interessante, abordada diretamente lá pelo oitavo episódio da série: essas visões seriam inevitáveis, prenúncios de um destino imutável, ou teriam as pessoas o poder de mudar o próprio futuro?

Não sei ainda que destino os autores vão dar à série, mas por enquanto tem-se um equilíbrio interessante entre pessoas que tornam suas profecias auto-concretizadas (porque começam a agir conscientemente em sua direção, conspirando para que elas aconteçam) e outras que resolvem fazer o que for preciso para evitá-las, inclusive tomando medidas drásticas. Como suas histórias estão nas mãos dos roteiristas, ainda é possível que as visões de muitos se concretizem.

Mas a Neurocientista de Plantão gostaria de deixar aqui um comentário sobre o valor de vislumbrar o futuro. Não precisa ser por meio de cartomante, blackout fictício, pré-cognitivos (como os do filme Minority Report), espíritos ou sonhos: pode ser um vislumbre consciente, do tipo "se eu agir assim, acho que daqui a seis meses estarei __________"). A capacidade de vislumbrar o próprio futuro pode ser uma grande motivação para se evitar arrependimentos, tomar boas decisões - e, por que não, mudar de ideia.