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Thursday
Jul032014

CsF: regras brasileiras do pós-doutorado (ou sua falta) conflitam com as regras estrangeiras

Atenção interessados no CsF: Vejam este relato do que acontece quando o governo brasileiro exporta nossos jovens cientistas como "pós-docs" sem direitos, digo, temporary affiliates - e esses jovens descobrem que, lá fora, eles TEM, sim, que ter direitos - como um pagamento maior, condizente com o estipulado pelo sindicato dos pós-docs (sim, isso existe), plano de saúde e férias.

Recomendo fortemente que leiam até o fim o relato abaixo, que reproduzo na íntegra a pedidos do autor, Cherre Sade. Trata-se de um choque de realidades que, infelizmente, não é surpresa alguma, sabendo como pós-docs são tratados pelo governo aqui, em contraste aos trabalhadores profissionais que são lá fora - ao menos nos EUA, no caso em questão.

É FUNDAMENTAL que nossos jovens cientistas conheçam seus direitos. Se no país isso (ainda) não serve pra nada, ao menos saibam que, indo para o exterior como bolsistas, vocês são mão-de-obra mais do que barata: gratuita (para eles) e sem direitos - MAS a legislação lá dá amparo aos cientistas trabalhadores, e chega a processar a universidade estrangeira que aceitou a mão-de-obra imigrante em condições ilegais (não tem outra palavra). O que deixa o governo brasileiro passado, é claro, pois pega muito mal e "coloca em risco o CsF". Bom, eu diria que era só eles fazerem a coisa direito que não haveria risco para ninguém...

Com a palavra, o Dr. Cherre Sade:

O café-com-leite dos americanos

Prezada Suzana,

Recentemente, voltei dos EUA após 18 meses como pós-doutorando na University of California (UC), em Davis. Os primeiros 12 meses foram financiados pelo CNPq, no âmbito do programa Ciência sem Fronteiras (CsF), cuja versão “2.0” acaba de ser anunciada nacionalmente pela nossa presidenta. Os seis meses restantes foram financiados com recursos do laboratório onde já vinha trabalhando, a convite do meu então supervisor.

Durante os primeiros 12 meses, ou seja, durante o período em que eu fui financiado pelo CsF, notei que em alguns momentos sofria discriminação dentro do campus. Por exemplo, na biblioteca, meu acesso a empréstimos de livros era bastante limitado quando comparado a meus colegas pós-docs americanos, assim como os descontos no restaurantes universitários, que meus colegas americanos conseguiam, e eu, não. O mesmo ocorria com acesso à saúde, onde os ianques tinham um plano com cobertura completa, enquanto eu, não. Quando eu questionava, por exemplo, no restaurante, afirmando que eu também era pós-doc, eu era avisado de que meu nome não constava no sistema. Logo notei que o mesmo ocorria a outros pós-docs brasileiros. Ao contactar o sistema de informática do campus para verificação do meu status, fui avisado de que eu não fora classificado como um pós-doc, mas sim, como um “temporary affiliate”. Conversei com colegas brasileiros e todos receberam a mesma classificação. Aquilo me incomodou bastante, mas não foi difícil me conformar com essa discriminação, já que carregava o complexo de “vira-lata” do Brasil, onde pós-docs ainda são tratados como mão-de-obra barata, sem direito a nada além de uma doação mensal. Sinceramente, não me surpreendia que o CNPq havia nos enviado ao exterior como pós-docs “de segunda”, ou “temporary affiliates” já que nossa mensalidade e seguro-saúde eram bem inferiores aos dos americanos, além do fato de não termos férias e demais direitos trabalhistas, o quais eles tinham garantidos por lei.

Acontece que, nos meus últimos seis meses nos EUA, quando passei a ser financiado com recursos americanos, eu fui, pela primeira vez, reconhecido pela universidade de fato como pós-doc. No meu trabalho, nada mudou: continuei fazendo a mesma coisa que eu já vinha fazendo há um ano, ou seja, ciência. Mas a partir daí, todas aquelas discriminações pararam de existir. Comecei a ter acesso a um plano de saúde com cobertura completa, descontos nos restaurantes, podia pegar emprestado até 300 volumes na biblioteca e passar meses com eles, além de finalmente ter sido classificado como pós-doc no “bendito” sistema.

Pouco tempo após a contratação fui procurado por um membro da União dos Pós-docs da UC, o qual me informou que a situação em que eu e meus colegas brasileiros estávamos até então era ilegal, já que a Universidade teria a obrigação de classificar como pós-doc aqueles que satisfazem todos os pré-requisitos, assim como nós, bolsistas de pós-doutorado no exterior do CsF. Não demorou muito e tudo ficou claro: a Universidade estava me recebendo como mão-de-obra de alto nível, a custo zero, mas não podia me reconhecer como pós-doc porque a mensalidade e benefícios pagos pelo CNPq estavam muito aquém dos limites mínimos da própria Universidade para a posição de pós-doc. Para me reconhecer como pós-doc, a Universidade deveria suplementar a mensalidade e benefícios doados pelo CNPq, ou exigir que o CNPq o fizesse, até que o mínimo acordado para classificação como pós-doc (salário anual de aproximadamente US$ 40 mil, acesso a um plano de saúde com cobertura total, férias, entre outros) fosse atingido. Só que a Universidade não fez essa exigência ao CNPq, e nem suplementou ela própria, nos recebendo praticamente como pós-docs clandestinos, ou seja, “temporary affiliates”. Nessa hora, me lembrei de quando eu era criança e meu irmão mais novo queria brincar na minha turma de amigos, todos 4-5 anos mais velhos que ele. Nós não queríamos jogar com ele, pois ele era “muito novo”. Contudo, para evitar dize-lo “não” e vê-lo chorar, a gente deixava ele acreditar que fazia parte do jogo, mas, sem que ele percebesse, nós não considerávamos as jogadas dele. Meu irmão era então o que se chama na minha região de “café-com-leite”. Anos depois, lá estava eu pagando o meu “pecado”, com juros e correção, sendo o café-com-leite dos americanos.

A partir daí, a União pediu esclarecimentos à Universidade, a qual prontamente admitiu seu “erro” e prometeu encontrar uma forma de corrigi-lo. Isso foi há exatos 7 meses, mas até agora nada de correção... Aqui, abaixo do Equador, por outro lado, as coisas estão caminhando a passos de girafa, ou melhor, correndo. Isso porque meu então supervisor, Walter S. Leal, um recifense “arretado”, membro da Academia Brasileira de Ciências e, segundo ele mesmo, o responsável pela presença do CsF na UC e também coordenador do programa na UC, informou ao CNPq/MCT/MEC que a União dos Pós-docs estava processando a Universidade em meu nome por compensação monetária, mas eu nunca solicitei dinheiro da Universidade. Como humilde brasileiro ainda com complexo de vira-lata, pedi apenas reconhecimento e respeito, não só para mim, mas para meu colegas que deixaram o Brasil e suas famílias, ganhando uma merreca, vivendo como estudantes, mas apesar de tudo se dedicando à ciência como profissionais (que infelizmente e legalmente, não são, nem no Brasil, nem nos EUA). Meu pedido foi esse. Aliás, oficialmente, o pedido não foi meu, mas, sim, da União, que não tem complexo e exigiu uma retratação da Universidade, a qual incluía compensação monetária, sim! Reconhecer o pós-doutorado financiado pelo CNPq/CsF e me pagar o que eu receberia, com benefícios e tudo, caso essa maracutaia, digo, “erro” da Universidade não tivesse ocorrido, era a única forma de correção.

Demorou um piscar de olhos desde que o Dr. Leal informou o CNPq até este me contactar, bem diferente de quando eu informei o CNPq da minha dívida de quase US$ 2 mil no hospital americano após ter dado entrada na emergência. Essa resposta o CNPq nunca me deu, mas logo após o contato do Dr. Leal, tive a honra de receber um e-mail da Coordenação Geral do CsF. Na mesma mensagem, justapostos, estavam um pedido de esclarecimentos com relação ao “processo” que eu houvera incentivado contra a UC, e um aviso de que eu estava devendo documentos importantes ao CNPq e que se eu não os enviasse com urgência, teria que devolver os quase US$ 32 mil que me foram doados para ser temporary affiliate, digo, pós-doc nos EUA. Eu expliquei a situação, mas tudo o que recebi foram solicitações para “tomar ações” para evitar que as relações bilaterais entre CNPq/CsF/MEC/MCTI e UC não fossem quebradas. Enquanto isso, meu então supervisor, o Dr. Leal, me informou que estaria “dando” a autoria de um manuscrito meu, fruto dos 12 primeiros meses como “temporary affiliate” financiado pelo CNPq, a um colega de laboratório, que teve bem menor participação no projeto. Para completar a gama de boicotes, acabo de ser demitido de meu cargo de pesquisador na Embrapa, conquistado após concurso público, sem direito a nenhuma explicação. A propósito, estou escrevendo esse relato o mais rápido que posso, antes que misteriosamente meus dedos sejam amputados. Se bem que, caso isso venha a acontecer, ainda poderei recorrer às estratégias do criativo Marquês de Sade, cujo nome me foi dado, aliás, quase que profeticamente.

O que eu diria para os “pós-docs” brasileiros que estão embarcando para terras ianques pelo CsF? Eu diria que eles vão aprender e produzir tanto o quanto estiverem dispostos, assim como eu fiz, pois apesar de injusto, é possível, sim, fazer ciência de alto nível ganhando muito abaixo do seu nível. Considero essa resiliência de nós brasileiros, aliás, como uma das características que nos ajuda produzir apesar da exploração. Mas que esses novos colegas não esperem reconhecimento e respeito da Universidade e nem dos americanos, pois eles só podem nos dar o respeito que nós exigimos. E, infelizmente, estamos pedindo muito pouco, ou quase nada, exatamente como fazemos no Brasil.

Cherre Sade B. Da Silva.
Entomologista sem-emprego, sem-bolsa, e obrigado a permanecer no Brasil por mais 8 meses.

Tuesday
May272014

O cérebro do elefante em números

Saiu o artigo sobre o cérebro do elefante! Queríamos testar nossa hipótese de que o número absoluto de neurônios é um fator limitante à cognição, caso no qual o cérebro do elefante, 3 vezes maior do que o nosso, deveria ainda assim ter menos neurônios do que o cérebro humano. No entanto, o cérebro do elefante tem 3 vezes MAIS neurônios que o nosso - MAS 98% desses neurônios estão no cerebelo. No córtex cerebral, mesmo, são só 5.6 bilhões, cerca de um terço dos nossos 16 bilhões em média. Ou seja: ou está tudo errado (sempre uma possibilidade...), ou aceitamos que o elefante é mais capaz cognitivamente do que nós somos, com seu zilhão de neurônios no cerebelo (difícil de acreditar), ou então de fato é o córtex cerebral que mais importa - o que condiz com a diferença cognitiva entre humanos e elefantes. Eu fico com a última, mas agora vamos aos cetáceos para ver se também eles têm menos neurônios em seus córtices gigantescos do que nós humanos.

(O que fazem tantos neurônios no cerebelo do elefante? Minha aposta está no processamento sensório-motor da tromba)

O artigo, ainda não formatado mas já no texto final e com as figuras, está disponível gratuitamente aqui:
http://journal.frontiersin.org/Journal/10.3389/fnana.2014.00046/abstract

Tuesday
May132014

Cérebro de elefante, cognição de elefante

Estou colocando o que espero que sejam os retoques finais no nosso artigo sobre o cérebro do elefante africano, mas enquanto ele não sai, acho que não coloquei aqui este artigo simpático que o Ferris Jabr, da Scientific American, escreveu em seu blog este ano sobre quão inteligentes elefantes de fato são - e mencionando nosso trabalho, que apresentamos no congresso da Society for Neuroscience ano passado:
http://blogs.scientificamerican.com/brainwaves/2014/02/26/searching-for-the-elephants-genius-inside-the-largest-brain-on-land/

Monday
May122014

23.857 visualizações, 177 citações em 5 anos. Nada mau...

...e olha que isto é de UM só artigo: minha revisão de 2009 sobre o cérebro humano e como seu número de neurônios se compara com o de outras espécies.

A imagem abaixo é uma indicação do impacto mundo afora deste artigo: mais de 20 mil visualizações do texto integral. Nada mau! Gosto das revistas da Frontiers por uma série de razões, e apenas uma delas é esse relatório de visitas e downloads de cada artigo que publicamos lá. Segundo o Google Scholar, esta revisão, publicada em 2009, já foi citada 177 vezes - menos somente que o artigo original sobre o número de células no cérebro humano, citado 303 vezes até agora.



Coloco isso aqui como motivação para os jovens cientistas brasileiros. Se os outros fazem salami science, ciência-de-porta-de-geladeira ("qual é a droga/subunidade de receptor/probe que vamos testar hoje?"), ou apenas mais um "trabalhinho" (como eu detesto ouvir isso!) pra criar mais uma linha em seus currículos, problema deles. É, SIM, possível fazer ciência de ponta neste país, apesar dos pesares. Pensar grande é um dos requisitos básicos; investir em PARTICIPAÇÃO INTERNACIONAL também - ir a congressos, conhecer pessoalmente as pessoas da sua área, divulgar e defender suas ideias. Não se faz ciência de impacto internacional sem sair de casa. Eu acho, ao menos.

Thursday
Dec122013

O mais citado é nosso!

Nosso artigo sobre o número de neurônios no cérebro humano, publicado em 2009, é *O* artigo mais requisitado no site do Journal of Comparative Neurology nos últimos anos. Deixa eu dizer de novo: de TODOS os artigos publicados no JCN nos últimos anos, nosso artigo é, há alguns anos seguidos, *O* artigo com o maior número de downloads no site da revista. Ou seja: somos os maiores contribuintes para AUMENTAR o fator de impacto da revista nos últimos anos. Ah que gratificante, em tempos de reclamações generalizadas sobre ciência brasileira insignificante. A nossa não é. Só falta o CNPq notar isso :o))))))

O artigo está disponível aqui para quem quiser.

Monday
Dec092013

TEDGlobal 2014: o que o cérebro humano tem de especial?

Minha palestra no TEDGlobal deste ano está disponível, com e sem legendas!

Acho curioso como os comentários mais populares, no site do TED, são de apenas dois tipos: (1) "Mas se é a cozinha que nos tornou humanos, com tantos neurônios, como foi que um ancestral com menos neurônios conseguiu inventar a cozinha?" e (2) "Sei não. Conheço pessoas que só comem comidas cruas. Isso não prova que você está errada e o cozimento não é necessário para conseguirmos calorias suficientes?". 

Minha resposta à pergunta número 1: controlar o fogo para cozer alimentos é semelhante a usar ferramentas. Antes de inventar o cozimento, mais de 2 milhões de anos atrás, nossos ancestrais, com um tamanho encefálico (e portanto supostamente número de neurônios) semelhante ao de grandes primatas atuais, já sabiam usar ferramentas (como grandes primatas atuais também sabem). Mais importante do que isso, contudo, nossos ancestrais a essa altura já sabiam não só usar pedras naturais como ferramentas, como já tinham sacado como transformar pedras em ferramentas mais eficazes. Ou seja: já existia uma cultura de manipulação de objetos naturais como ferramentas. Os grandes primatas e seus ancestrais, talvez por razões aleatórias, não chegaram a esse ponto. Portanto, minha resposta é: "o número de neurônios dos nossos ancestrais provavelmente já era suficiente para eles conseguirem usar e manipular ferramentas, como grandes primatas atuais, mas à diferença destes, nossos ancestrais já tinham uma cultura de uso de ferramentas. Daí a manipular o fogo deve ter sido um pulo pequeno o suficiente para ser possível".

Quanto a 2: sim, é possível sobreviver com uma dieta exclusivamente crua hoje em dia - mas somente porque nossos antepassados, com calorias asseguradas pela cozinha (ou algum outro truque, como comer medulas ósseas e cérebros), criaram agricultura, pecuária, sistemas de distribuição e armazenamento de alimentos, supermercados e geladeiras. Imagine comer apenas alimentos crus *E* que você teve que caçar, ou catar, ou mesmo colher. Duvido que sobrasse tempo suficiente. Aliás, este é o experimento apropriado para testar nossa dependência da cozinha para conseguir calorias suficientes: voltar à savana e comer apenas comida crua *naquele ambiente*. Quero só ver... Aliás, a quem interessar possa: obter calorias suficientes com uma dieta crua é tão difícil que esta é *A* dieta para perder peso de eficácia assegurada pela ciência ;oP

Original sem legendas:

Legendado em português:

 

 

Wednesday
Aug282013

Cerebrando: mágica!

No primeiro episódio do Cerebrando, na tvciencia.net, eu entrevisto o ator, humorista e mágico Gabriel Louchard. Por que é tão fácil enganar o cérebro? Por que gostamos tanto de ser enganados, e o que pode ter de útil nisso? Assista!

Wednesday
Aug282013

Vem aí Cerebrando!

Estreia em breve Cerebrando, meu programa de entrevistas sobre a neurociência do cotidiano, na tvciencia.net!

Wednesday
Aug142013

Direto de Brasília: respostas aos questionamentos da ANPG

No áudio abaixo, minhas respostas a várias questões levantadas pelos participantes do Seminário e outras trazidas pela Luana Bonone, presidente da ANPG.

 

Suzana - respostas

Wednesday
Aug142013

Direto de Brasília: Rossangela Rassy e nossas condições "indignas"

Ouça o depoimento da Presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais do Trabalho, Rosangela Rassy, sobre as condições indignas de trabalho dos nossos jovens cientistas e a necessidade de regulamentação da profissão.

 

Rosangela Rassy