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Aulas, aulas e mais aulas...

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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Thursday
Dec122013

O mais citado é nosso!

Nosso artigo sobre o número de neurônios no cérebro humano, publicado em 2009, é *O* artigo mais requisitado no site do Journal of Comparative Neurology nos últimos anos. Deixa eu dizer de novo: de TODOS os artigos publicados no JCN nos últimos anos, nosso artigo é, há alguns anos seguidos, *O* artigo com o maior número de downloads no site da revista. Ou seja: somos os maiores contribuintes para AUMENTAR o fator de impacto da revista nos últimos anos. Ah que gratificante, em tempos de reclamações generalizadas sobre ciência brasileira insignificante. A nossa não é. Só falta o CNPq notar isso :o))))))

O artigo está disponível aqui para quem quiser.

Monday
Dec092013

TEDGlobal 2014: o que o cérebro humano tem de especial?

Minha palestra no TEDGlobal deste ano está disponível, com e sem legendas!

Acho curioso como os comentários mais populares, no site do TED, são de apenas dois tipos: (1) "Mas se é a cozinha que nos tornou humanos, com tantos neurônios, como foi que um ancestral com menos neurônios conseguiu inventar a cozinha?" e (2) "Sei não. Conheço pessoas que só comem comidas cruas. Isso não prova que você está errada e o cozimento não é necessário para conseguirmos calorias suficientes?". 

Minha resposta à pergunta número 1: controlar o fogo para cozer alimentos é semelhante a usar ferramentas. Antes de inventar o cozimento, mais de 2 milhões de anos atrás, nossos ancestrais, com um tamanho encefálico (e portanto supostamente número de neurônios) semelhante ao de grandes primatas atuais, já sabiam usar ferramentas (como grandes primatas atuais também sabem). Mais importante do que isso, contudo, nossos ancestrais a essa altura já sabiam não só usar pedras naturais como ferramentas, como já tinham sacado como transformar pedras em ferramentas mais eficazes. Ou seja: já existia uma cultura de manipulação de objetos naturais como ferramentas. Os grandes primatas e seus ancestrais, talvez por razões aleatórias, não chegaram a esse ponto. Portanto, minha resposta é: "o número de neurônios dos nossos ancestrais provavelmente já era suficiente para eles conseguirem usar e manipular ferramentas, como grandes primatas atuais, mas à diferença destes, nossos ancestrais já tinham uma cultura de uso de ferramentas. Daí a manipular o fogo deve ter sido um pulo pequeno o suficiente para ser possível".

Quanto a 2: sim, é possível sobreviver com uma dieta exclusivamente crua hoje em dia - mas somente porque nossos antepassados, com calorias asseguradas pela cozinha (ou algum outro truque, como comer medulas ósseas e cérebros), criaram agricultura, pecuária, sistemas de distribuição e armazenamento de alimentos, supermercados e geladeiras. Imagine comer apenas alimentos crus *E* que você teve que caçar, ou catar, ou mesmo colher. Duvido que sobrasse tempo suficiente. Aliás, este é o experimento apropriado para testar nossa dependência da cozinha para conseguir calorias suficientes: voltar à savana e comer apenas comida crua *naquele ambiente*. Quero só ver... Aliás, a quem interessar possa: obter calorias suficientes com uma dieta crua é tão difícil que esta é *A* dieta para perder peso de eficácia assegurada pela ciência ;oP

Original sem legendas:

Legendado em português:

 

 

Wednesday
Aug282013

Cerebrando: mágica!

No primeiro episódio do Cerebrando, na tvciencia.net, eu entrevisto o ator, humorista e mágico Gabriel Louchard. Por que é tão fácil enganar o cérebro? Por que gostamos tanto de ser enganados, e o que pode ter de útil nisso? Assista!

Wednesday
Aug282013

Vem aí Cerebrando!

Estreia em breve Cerebrando, meu programa de entrevistas sobre a neurociência do cotidiano, na tvciencia.net!

Wednesday
Aug142013

Direto de Brasília: respostas aos questionamentos da ANPG

No áudio abaixo, minhas respostas a várias questões levantadas pelos participantes do Seminário e outras trazidas pela Luana Bonone, presidente da ANPG.

 

Suzana - respostas

Wednesday
Aug142013

Direto de Brasília: Rossangela Rassy e nossas condições "indignas"

Ouça o depoimento da Presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais do Trabalho, Rosangela Rassy, sobre as condições indignas de trabalho dos nossos jovens cientistas e a necessidade de regulamentação da profissão.

 

Rosangela Rassy

Wednesday
Aug142013

Direto de Brasília: Regulamentação da Profissão de Cientista

Foi dia 13 de agosto de 2013 o Seminário organizado pelo Deputado Glauber Braga sobre a Regulamentação da Profissão de Cientista. Conseguimos o apoio de vários deputados, e o Seminário se encerrou com a decisão do Deputado Glauber Braga de elaborar uma pré-proposta para ampla discussão pela internet de modo que ele possa apresentar de fato uma proposta de projeto de lei à Câmara. Ao menos esta parte deve andar bastante rápido.

Tivemos também a participação brilhante e importantíssima da Sra. Rosangela Rassy, Auditora Fiscal do Trabalho, que deu seu depoimento contundente e inequívoco: nossos jovens cientistas trabalham em condições INDIGNAS, e a necessidade de regulamentação é clara, como aconteceu com Administradores e Fisioterapeutas. Agora é nossa vez!

Transcrevo abaixo minha apresentação de 20 minutos. Seguem também as gravações em áudio da minha apresentação e, nos próximos posts, as gravações do depoimento da Rosangela Rassy e dos meus comentários em resposta aos questionamentos levados pela Luana Bonone, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos, e outras perguntas feitas pelos jovens cientistas que participaram da plateia do Seminário. Foi uma excelente oportunidade, acho que várias dúvidas foram esclarecidas. Por favor compartilhem!

 

Seminário – Regulamentação da Profissão de Cientista

Câmara dos Deputados, 13 de agosto de 2013

Suzana Herculano-Houzel

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Bom dia a todos. Eu quero antes de mais nada agradecer ao Deputado Glauber Braga e à sua equipe por organizar este evento em prol da regulamentação da profissão Cientista, e eu cumprimento os deputados presentes e agradeço seu interesse por essa questão.

Não represento nenhuma organização, nenhuma associação, nenhum grupo. Não vim trazer uma proposta, embora eu tenha várias, e vou ficar muito feliz de mencioná-las se a ocasião se apresentar. Minha função aqui é bastante simples, e não depende da autorização de ninguém, não depende de discussão prévia, não depende de representatividade. Minha função é expor aos senhores um FATO; alertá-los para as consequências possíveis desse fato; e lhes pedir para agir pela correção do problema, com a regulamentação da profissão Cientista.

O fato é o seguinte: a maior parte da ciência no Brasil é feita por jovens que trabalham sem que seu trabalho seja reconhecido ou regulamentado como trabalho, e portanto sem direitos nem deveres trabalhistas: sem jornada regulamentada, sem férias, sem décimo terceiro, sem auxílio transporte ou insalubridade, sem qualquer proteção trabalhista, o que faz com que ser cientista no Brasil seja hoje uma péssima ideia. Já vou explicar melhor a situação.

A CONSEQUÊNCIA possível da irregularidade da situação trabalhista desses jovens cientistas é qualquer um desses jovens trabalhadores - e são dezenas de milhares deles - fazer uma denúncia ao Ministério Público do Trabalho e solicitar auditoria das suas condições trabalhistas. A sra. Rosangela Rassy, auditora fiscal do Trabalho, aqui presente, pode atestar a irregularidade da situação, que já vou expor aos senhores. A pior consequência possível de uma ação trabalhista como essa seria o fechamento de laboratórios e centros de pesquisa onde trabalham irregularmente, sem qualquer reconhecimento ou direitos trabalhistas, nossos jovens cientistas, o que efetivamente paralisaria a produção científica no país. Não é uma alternativa que agrade a ninguém.

Mas tudo isso pode ser evitado se os senhores tomarem a dianteira e agirem primeiro para CORrIGIR o problema. Por isso estou aqui para fazer um PEDIDO que está em poder dos senhores: criar e regulamentar a profissão Cientista, obrigando o reconhecimento dos direitos trabalhistas de nossos jovens cientistas. Regulamentar significa, entre outras coisas, impedir que um jovem trabalhe de fato produzindo conhecimento científico sem ter vínculo empregatício e direitos e deveres trabalhistas.

Vou me apresentar, então. Meu nome é Suzana Herculano-Houzel, e sou neurocientista: pesquiso como o cérebro se forma e como ele funciona. Mas não posso dizer que esta é minha profissão, pois minha profissão - cientista - não existe no Brasil: não está na lista de profissões do Ministério do Trabalho. Como bem disse o Deputado Paulo Teixeira, para poder atuar como cientista, faço o que a grande maioria dos meus colegas fazem: sou empregada como PROFESSORA de nível superior, em meu caso na UFRJ. Eu literalmente faço ciência nas horas vagas entre preparar aulas, dar aulas, aplicar exames e corrigir provas.

Cientista é quem faz ciência: quem usa o método científico de elaboração e teste de hipóteses sobre o mundo fundadas na observação desse mundo para gerar conhecimento sobre ele. É esse conhecimento que nos ensina sobre nós mesmos, que faz nossa civilização crescer e progredir ao invés de simplesmente ver o tempo passar, que permite que a gente não morra mais de sarampo ou pólio na infância nem de pneumonia aos 30 anos, que melhora nossa qualidade de vida. Como qualquer pessoa que gera esse tipo de conhecimento, eu sou, portanto, cientista.

A maior parte da nossa ciência no Brasil, no entanto, não é feita por "cientistas"; é feita por professores universitários, como eu, e sobretudo por jovens ditos "estudantes de pós-graduação". A produção científica brasileira, como pode atestar o Sr. Guilherme Mello, representante aqui do CNPq, vem crescendo ao longo dos últimos 10 anos de mãos dadas com o número de mestres e doutores que formamos. São esses jovens o grosso da mão-de-obra trabalhadora que produz o conhecimento científico no Brasil. É o fruto do seu esforço, do seu TRABALHO, que faz a produtividade científica brasileira crescer em vários índices. Se esses jovens pararem o seu TRABALHO, a produção científica, e o crescimento científico no país, PARAM.

Mas o trabalho desses jovens não é chamado de TRABALHO; é chamado de Estudo, com a justificativa, inválida, de que eles estão "investindo" na sua formação (como se eles tivessem alternativa!), ou adquirindo formação obrigatória para só então poderem atuar como profissionais. Nossos jovens cientistas são então chamados de "estudantes de pós-graduação" - o que é um erro que outros países já não cometem mais.

O erro é não reconhecer seu trabalho como qualquer outro trabalho: esforço laboral que gera um produto, conhecimento científico. De fato, um jovem cientista recém-graduado não tem ainda competência para chefiar um laboratório ou liderar uma equipe de pesquisa. Mas o jovem engenheiro recém-graduado também não tem. A expertise necessária será adquirida com a prática da profissão - mas, ainda assim, um engenheiro recém-formado tem que ser contratado como Engenheiro, com direitos e deveres trabalhistas.

Da mesma forma, um médico recém-formado também não tem ainda competência para fazer cirurgias sozinho - mas já é um Médico, com direitos e deveres trabalhistas. Um jornalista recém-formado não pode chefiar uma editoria, mas, para atuar como jornalista, também tem que ser contratado como jornalista profissional que é.

Por que, então, o jovem cientista recém-graduado precisa passar pela humilhação de ser considerado ainda estudante, de não ter seu trabalho reconhecido como trabalho, de ter que ouvir da família e amigos "quando é que você vai cconseguir um emprego e começar a trabalhar de verdade, hein?"?

Esses jovens cientistas (que eu chamo assim porque eles produzem, de fato, ciência), recém-saídos das faculdades, em geral trabalham jornadas de pelo menos 40 horas por semana em laboratórios e centros de pesquisa. É comum levarem trabalho para casa. É comum trabalharem aos fins-de-semana, pois os animais de laboratório, culturas de bactérias e outros experimentos não respeitam sábados, domingos nem feriados.

Mas, como o seu trabalho não é chamado de trabalho - porque as universidades públicas, onde a maior parte da boa ciência é feita no país, não podem contratar trabalhadores sem ser por concurso público, a solução ofertada a esses jovens é a tábua de salvação da pós-graduação. Que também é a tabua de salvação para um chefe de laboratório como eu: a única maneira de ter esses cientistas em minha equipe é tê-los como alunos de pós-graduação. Eu e meus colegas não podemos simplesmente contratar profissionais com o perfil necessário à execução de nossos projetos de pesquisa. O resultado é um engessamento e um atraso enorme ao andamento da ciência no nosso país.

Deixem eu descrever a trajetória típica de um jovem cientista. Durante a graduação (em biologia, biomedicina, física, química ou tantas outras áreas), ele já fazia ciência, aí sim, como aprendiz, estagiário, durante a iniciação científica, ganhando uma bolsa menor que um salário mínimo.

Quando ele se forma, para trabalhar fazendo ciência como antes, ele TEM QUE se entrar para a pós-graduação. Isso significa se sujeitar a uma bolsa de mestrado de 1.500 reais mensais, fixos, pelos próximos dois anos, e sem qualquer direito trabalhista. Isso se ele tiver sorte: onde eu trabalho, temos excelentes jovens cientistas, "alunos de mestrado", trabalhando SEM BOLSA, sem qualquer forma de remuneração. Para receber a bolsa, aliás, é preciso passar por mais uma humilhação: assinar uma declaração atestando que você não tem qualquer outra fonte de renda. Ou seja: um atestado de pobreza. Enquanto isso, seus colegas recém-formados em administração, economia, engenharia, advocacia já têm empregos de verdade, ganhando salários de verdade.

Ao terminar o mestrado, esse jovem cientista (que provavelmente já engrossou, com seu trabalho, o currículo do seu orientador e o número de publicações que fazem subir a produtividade científica da sua universidade), esse jovem cientista, para continuar atuando como cientista, TEM QUE continuar sendo apenas "aluno" de pós-graduação e fazer doutorado. Isso porque, sem doutorado, ele ainda não pode se candidatar a uma vaga em concursos para professor universitário, a única possibilidade real de emprego se ele quiser atuar também como cientista. (Sim, existe a possibilidade de concurso para "técnico"; mas o técnico, em nosso país, não é um cientista, e sim alguém com habilitação específica apenas para dar apoio técnico, justamente, aos cientistas - que estão nos centros de pesquisa como estudantes).

Então. Esse jovem cientista tem que entrar para o doutorado, para continuar fazendo ciência e gerando conhecimento para o país, e, SE conseguir bolsa, mais uma vez terá que assinar um papel aceitando ganhar um valor mensal fixo e não negociável de 2.200 reais pelos próximos QUATRO anos, também sem qualquer direito trabalhista, sem férias regulamentadas, com horário de trabalho à mercê das vontades do seu orientador, sem auxílio transporte, sem seguro de saúde ou auxílio insalubridade muito menos fgts ou contar tempo para a aposentadoria, sem pagar impostos, sem contribuir para o INSS. Esse jovem completa então o doutorado, já com uns 27-28 anos de idade - e, para todos os fins práticos, ele nunca trabalhou.

A aberração continua no chamado pós-doutorado, um limbo criado para manter ativos os jovens já mais do que qualificados para serem pesquisadores independentes, mas que não têm como ser absorvidos em concursos públicos para PROFESSOR universitário. O chamado "pós-doutorando", se tiver sorte, ganha uma BOLSA de estudos no valor de 3 mil e pouco a 5 mil reais, dependendo de ele ser bolsista da Capes, CNPq, ou, com mais sorte, da Fapesp. Este jovem a essa altura já não é mais tão jovem assim: já chegou aos 30 anos, ou passou dos 30 anos - e, para todos os fins práticos, NUNCA TRABALHOU.

Se continuar tendo sorte, esse pós-doutorando conseguirá passar em um concurso público para atuar como... PROFESSOR universitário. Notem: toda a sua vida ele atuou como CIENTISTA e se preparou para ser um cientista independente. Mas, para ter emprego real pela primeira vez, ele terá que ser... Professor, o que ele até então nunca foi!

A triste realidade é que um número cada vez maior de jovens cientistas abandonam essa carreira (inexistente) em busca de empregos de verdade fora da ciência, com salários de verdade e direitos trabalhistas, o que é para muitos a única maneira de conseguir sair da casa dos pais, formar uma família e ter vida independente. Ou seja: por não darmos condições de trabalho adequadas, estamos PERDENDO nossos cientistas, e ainda deixando de estimular as novas gerações a buscar a ciência.

Outros países já reconheceram o problema e agiram de acordo. Infelizmente, também nisso nós brasileiros não saberemos DAR o exemplo; mas ainda podemos aspirar a SEGUIR o bom exemplo de países como a Alemanha, a Holanda, Suécia, Estados Unidos e França. Nesses países, o jovem cientista recém-graduado que continua sua formação na pós-graduação é, antes de mais nada, EMPREGADO CONTRATADO pela instituição onde atua, com todos os direitos e deveres trabalhistas como qualquer outro trabalhador. Pagam impostos, contribuem para a aposentadoria, têm jornada de trabalho regulamentada, direito a férias e licença maternidade assegurados por lei - e não à mercê das vontades de um orientador todo-poderoso, que pode ou não ser um patrão justo e correto.

Aqui eu quero deixar claro o que eu NÃO estou dizendo ou pedindo. Não estou dizendo que nossos jovens cientistas devam passar a ser funcionários públicos assim que se formam. E não estou argumentando pela "profissionalização da pós-graduação", ao contrário do que alguns alegam.

O que estou fazendo é ALERTAR os senhores para a necessidade de reconhecer que o trabalho de nossos jovens cientistas é trabalho de fato, e REGULAMENTAR esse trabalho como tal.

Na prática, isso significa que, para continuar atuando como cientista, independentemente de cursar ou não a pós-graduação, o jovem cientista terá que ter um CONTRATO de TRABALHO, com todos seus direitos e deveres trabalhistas regulamentados. Exatamente como um jovem engenheiro, administrador, jornalista, ou empregada doméstica.

É claro que será necessário um período de transição para implementar mudanças para que nossos cientistas tenham direitos trabalhistas, já que eles não podem nem devem ser contratados sem concurso pelas universidades onde atuam. Mas os mecanismos já existem para que essas mudanças sejam facilmente implementadas, e aqui eu faço, sim, uma sugestão pessoal: é possível, por exemplo, fazer contratações por fundações e institutos já existentes associados às universidades, que poderiam receber dos governos federal e estaduais, que financiam quase que inteiramente a pesquisa científica no brasil, os valores que hoje são pagos como bolsas, sem contrato de trabalho, vínculo empregatício ou direitos trabalhistas. Com a obrigatoriedade de contratação virá naturalmente a possibilidade de oferecer salários com valores competitivos, e não valores de bolsas engessados pelo governo. Surgirá também a agilidade e flexibilidade de contratação, hoje inexistentes, mas tão essenciais para o bom andamento da ciência.

De novo: não represento ninguém, mas não preciso representar ninguém para dizer o que vim lhes dizer. Tenho aqui comigo 17.125 assinaturas eletrônicas de jovens cientistas ou aspirantes a cientistas brasileiros que pedem que sua profissão seja regulamentada para que eles possam ter seus direitos e deveres trabalhistas garantidos como QUALQUER outro trabalhador brasileiro tem.

Em uma pesquisa que fiz dois meses atrás com mais de oito mil jovens cientistas brasileiros, mais de 90% se disseram favoráveis à regulamentação. Como sempre, algumas pessoas são contrárias, por razões diversas - e um dos argumentos que mais ouço é que "isso precisa ser mais discutido". Mas, como lhes expus, algumas coisas são FATOS, que não dependem de discussão nem de apoio de ninguém. Fato é que nossos jovens cientistas trabalham duro e produzem a maior parte do conhecimento científico do país - mas não têm o seu trabalho reconhecido como trabalho.

É fundamental para a soberania de uma nação que ela valorize a produção de conhecimento científico, e isso começa por valorizar seus cientistas. Resolver fazer ciência no Brasil, hoje, é infelizmente uma PÉSSIMA decisão profissional, com pouquíssimas perspectivas. Imaginem quantos jovens nós poderemos atrair para a ciência quando ela se tornar uma alternativa profissional de fato viável e, mais ainda, de fato atraente e valorizada. Porque não é mais admissível que em pleno século XIX a ciência ainda seja feita no modelo do século 18, onde só faz ciência quem tem família rica o suficiente, com condições de se sustentar financeiramente ou viver na casa dos pais sem precisar depender do seu trabalho. Os países desenvolvidos já aprenderam que é preciso reconhecer e valorizar o trabalho de seus cientistas, e isso começa por chamar de trabalho aquilo que É trabalho. Contamos com os senhores para fazer do nosso Brasil um país que se ORGULHA de seus cientistas e que lhes dá e  reconhece o devido valor do seu trabalho.

Apresentação - Suzana

Monday
Aug052013

Cotas na universidade, não! Ensino básico decente primeiro, isso sim!

Por que sou CONTRA as cotas SEM que antes haja a moralização do ensino básico? É só olhar para o rendimento da minha turma que está terminando o semestre na UFRJ. 

Para começar, a taxa de evasão: dos 83 inscritos, apenas 44 de fato compareceram regularmente às aulas (e eu fiz chamada religiosamente). Na UFRJ. Em um curso de alta procura, para "formar futuros cientistas". 

Desses 44, apenas 11 (25% da turma) obtiveram ao menos 50% de aproveitamento (nota 5, média de aprovação da UFRJ) na avaliação mais recente, com 10 perguntas simples, básicas, e abrangentes sobre o conteúdo do curso. Um tirou dez (que me serve como controle interno: o conteúdo FOI dado, e de maneira perfeitamente compreensível), outros 2 tiraram entre 8 e 10, mais 5 tiraram entre 6 e 7. 

Mas 61% da turma tiraram 4 ou menos. Vendo de outra forma,

- 61% tiveram rendimento sofrível (nota abaixo de 4, sendo que 17 desses 27 alunos tiraram menos de 3 na avaliação)
- 20% tiveram rendimento passável (4-6, em torno da média de aprovação)
- 11% tiveram bom rendimento (6-8)
- 7% tiveram rendimento ótimo (8-10).

As notas eram bem melhores 2-3 anos atrás, e lembro de minha turma na Biologia ter um rendimento médio muito, muito, muito melhor do que isso. O que aconteceu? Tenho duas hipóteses que se complementam. 

Primeira: o número de cursos relacionados à biologia cresceu, fazendo aumentar o número de vagas na universidade (os alunos que antes podiam cursar apenas biologia hoje podem optar entre biologia, biomedicina, biofísica, microbiologia etc) - mas o número de alunos bem preparados para ocupar essas vagas NÃO cresceu. Resultado: mais alunos nas universidades, sim - mas são mais alunos que NÃO estão preparados. Não são apenas "os próximos melhores alunos da fila, e portanto necessariamente com rendimento piorzinho". Não: são alunos que não demonstram capacidade de bom rendimento.

Segunda: as cotas. Temos alunos do ensino público entrando nas universidades, viva! - mas a dura realidade, e NADA SURPREENDENTE, é que esses alunos NÃO têm a MENOR condição de acompanhar as aulas. A necessidade de educação deles não pode ser corrigida, nem suprida, pela universidade: tinha que ter acontecido no ensino básico, mas não aconteceu.

Para testar minha hipótese será necessário e suficiente pegar dados pessoais desses alunos, o que eu NÃO vou fazer por diversas razões, entre elas isso caber à universidade, e não a mim.

De qualquer forma, o resultado é que temos cada vez MAIS alunos nas universidades, mas cada vez MENOS alunos de fato preparados para cursá-la e dela usufruir. O índice de reprovação só faz aumentar. Para quem não sabe avaliar dados e estatística, vai parecer, contudo, que é o ensino universitário que está piorando.

Agora eu pergunto: isso adianta de alguma coisa, trazer alunos despreparados para a universidade só para humilhá-los com notas 1, 2, 3, frustrá-los, reprová-los, e então jubilá-los, dizendo "olha, nós demos a chance de tê-los na universidade, se vocês não souberam aproveitar, problema de vocês"? Muito mais lógico, JUSTO e proveitoso, para os diretamente interessados e para o PAÍS, ressuscitar e valorizar o ENSINO BÁSICO antes de criar cotas, não?????????

Ou então Dilminha baixa uma portaria dizendo que devemos aprovar todos os alunos, e assim "resolve" de vez o problema do ensino no país, porque vamos formar muito mais universitários, viva!!!!

Frustração, muita, muita, muita... e enquanto isso, o governo faz mais amiguinhos, porque "está colocando os jovens na universidade", e nós professores universitários parecemos cada vez pior na fita.

Thursday
Jul112013

Por que poucas mulheres dando palestras de destaque?

Parece que não é só porque menos mulheres são convidadas para dar palestras científicas de destaque do que seria esperado pela proporção de cientistas mulheres; diz este estudo que a chance de uma mulher recusar um convite para dar uma dessas palestras é duas vezes maior do que a chance de os homens recusarem. A questão agora é descobrir o porquê da reticência feminina. Ansiedade/insegurança (alimentadas desde o berço pelos estereótipos malditos), filhos (donde mais uma vez o estereótipo de que homens podem viajar a trabalho, mas mulheres não) e questões práticas de financiamento são os candidatos mais prováveis.

Eu não recuso, não: estou justamente voltando de um congresso europeu onde fui uma de três mulheres e quatro homens a dar as conferências principais (o que, aliás, parece que foi ultra-novidade: cientistas-mulheres alemãs e espanholas vieram me dizer, depois da minha palestra, que até este ano quase só havia homens no pódio, e que suas alunAs estavam radiantes com a minha palestra, principalmente por, em tempos de crise, mostrar que é possível fazer ciência bacana com pouco financiamento - mas isso é outra estória). Mas tive a sorte de ser filha de pai e mãe que sempre combateram veementemente qualquer tipo de estereótipo e sempre me disseram "é claro que você pode". 

Se eu fui convidada para esta palestra por ser mulher? Se fui, os organizadores ao menos tiveram a decência/educação de não dizer isso (se tivessem dito, eu teria recusado dar a palestra). De qualquer forma, prefiro pensar que, homem ou mulher, é preciso ter estofo para ser convidado, então pronto: não vou ficar encucada com o assunto. Algum homem por acaso ficaria encucado pensando "será que eu fui convidado por ser homem?", por acaso? Não, não é mesmo? Então pronto: fui convidada porque estava à altura da empreitada, e pronto. Só espero que outras mulheres cientistas também pensem assim - como qualquer cientista, homem ou mulher, deveria pensar!

Monday
Jun172013

"Falta incentivo a ideias originais na ciência no país", diz neurocientista brasileira

Entrevista concedida para a Folha de São Paulo em maio de 2013, disponível na íntegra aqui.